
Acredito que essa tenha
sido a percepção mais difícil de escrever. Há tempos, eu não presenciava algo
semelhante. Sabe quando uma pessoa muito sensível vai assistir a uma peça tão
forte que lhe toca no que há de mais íntimo e profundo? É necessário um tempo
para compreender tudo o que começa a passar por nós. Assim, só agora consigo
escrever sobre.
Eu já sabia do que a peça
tratava, e me interesso bastante pela temática escolhida. E colocar isso tudo
numa ópera é uma ideia deveras tentadora. Pois é essa junção das artes que dá
maior intensidade ao que será apresentado. Dança, música, teatro... Quando é
bem feito, toca o público. E foi isso o que aconteceu. Bastou olhar as
expressões dos espectadores, seus comentários durante o espetáculo, a forma
como eles saíram do teatro, etc.
Começando pela cena
inicial: o som da orquestra junto aos movimentos lentos do bailarino
atravessando o palco. Essa mescla entre sonoridade intensa e movimentação lenta
se repete pela peça. O resultado em mim foi uma tensão pelo meu corpo. Era como
se algo estivesse sendo preparado para ser realizado. Como se cada
micromovimento resultasse na força e agilidade representada pelo som dos
violinos. Como se cada lento e calmo micromovimento tivesse outra intenção: a
da pressa e da voracidade.
Movimentos que se
repetem. Movimentos que se repelem. Que se aproximam. Que se chocam. Que
gritam. Que sussurram verdades em nossos ouvidos cardíacos, emotivos.
Por uma noite. Por apenas
1h40min de uma noite, eu pude ter uma clara ideia do que cada uma daquelas
pessoas sentiu. A dor, as dúvidas, o medo, as incertezas. Cada momento me
surpreendia. Independente de eu ter conhecimento ou não do que ocorreria -
afinal, muitos amigos que assistiram, comentavam bastante e demonstravam o quanto
o espetáculo os afetou. Conhecendo ou não, os momentos me impressionavam. Era
mais tocante o "Como aconteceria" ao invés de "O quê
aconteceria".
Um dos momentos era a cena
em que uma das bailarinas tinha o cabelo raspado em cena. Eu só percebi que aquilo
aconteceria quando enxerguei a máquina no bolso do ator que a carregava. O
instante, por mais rápido que tenha acontecido, tornou-se uma tortura. Pessoas
ao meu redor murmuravam: "Ai não", "Não, não, não...!". E
eu refletia se a dor maior era do público ou das pessoas que passaram por isso
naquele período. Qual é a distinção entre essas dores? Essa cena foi tão
chocante que eu não percebi que os demais atores tinham trocado de figurino em
cena. Só entendi quando os vi com outra roupa. Os meus olhos só acompanhavam o
movimento preciso da máquina pelos cabelos da atriz e o olhar expressivo dela,
como se estivesse encarando algo. A si mesma. A situação. Ou cada um de nós
presente naquela plateia.
Apesar de ter momentos que
nos perturbem emocionalmente, o espetáculo apresenta outros que podem
demonstrar graça ao público. Um deles é a cena dos dois generais na mesa de
jantar. A tensão inicial logo se mostra com um belo toque de sarcasmo e ironia
em relação ao íntimo daqueles dois homens de poder. Até onde vai toda a
brutalidade que demonstram? O que há no mais profundo daqueles seres?
O que há de mais profundo
em nós? Somos espectadores passivos àquilo que está sendo apresentado em cena?
Acredito que, pelos olhares e feição de cada um presente, P-U-N-C-H foi um belo
de um "soco" em nossa consciência. Em nossos sentimentos.
Por Manu Goulart
Ficha Técnica
Direção Geral, Direção Musical e Concepção: Christian Benvenuti
Direção Coreográfica: Silvia Wolff
Direção Cênica: Alexandre Vargas
Criação de Luz: Maurício Aguiar de Moura
Cenografia: Elcio Rossini
Criação dos Figurinos: Carolina Di Laccio
Direção de Vídeo: Eny Schuch
Produção: Débora Plocharski Borges/Tribolê Produtora
Elenco de Intérpretes/Criadores: Alessandra Souza Alexander Kleine Andrew Tassinari Consuelo Vallandro Cristiane Bocchi Débora Jung Bonzanini Gabriela Guaragna Giuli Lacorte Guilherme Conrad Gustavo Duarte Jaime Ratinecas Jeferson Cabral Julia Bueno Walther Luana Camila Luciano Souza Manuela Miranda Matina Banou Renan Santos Silva Viviane Gawazee
Assistência de Produção: Karenina Benvenuti e Matina Banou
Identidade Visual:Christian Benvenuti
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