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06/02/2011

Água Bebida na Concha da Mão




Uma joaninha pousa, suavemente, na tela do monitor ainda em branco. Mas eu, esta tarde, ainda não escrevi nada.
Para quê? Se por ali já havia pousado o frêmito e o mistério da vida...



Minha intervenção na poesia de Mário Quintana é com o intuito de relatar exatamente o que aconteceu quando comecei a escrever estas percepções, ou melhor, quando comecei a pensar no que escrever. Avistei a joaninha e em seguida, num estalo, avistei a formiguinha do poema de Mário. Quer coisa mais linda do que uma ligação como essa? Sim, porque talvez o universo que conhecemos está em toda sua integridade e vastidão por debaixo dessa associação, está todo dentro da joaninha viva, da formiguinha apressada, das letras sábias. Esse exemplo de despretensão e simplicidade na escrita vale ouro. Acaba fazendo da arte literária uma arte atemporal, acessível, cativante e popular.




Pois acho que é mais ou menos isso que o poeta gaúcho – nascido em 30 de Julho de 1906, leonino – fazia e gostaria que seus leitores fizessem: boas associações direcionadas à felizes reflexões. Uma mulher – e outras mulheres e outros homens, uma equipe, uma família - eu tenho certeza que alcançou esse ideal: Deborah Finocchiaro, uma das atrizes mais corajosas que eu tive a honra de assistir e conhecer. Corajosa porque ela vai (e foi!) atrás dos seus sonhos, chamou o diretor Jessé Oliveira, a artista plástica Zoravia Bettiol, o compositor Chico Ferretti - e tantos outros - assim montando essa lufada de esperança na vida que é Sobre Anjos e Grilos. E por que razão a união de tantos artistas se a obra é de um único poeta? Simples: a obra de Mário Quintana aborda milhares de assuntos pertinentes em formatos deliciosamente impertinentes! Ele não escreve para a burguesia, elite ou favela. Escreve para a Maria de Todo o Dia, pro João Cara de Pão.

“ (...)
Para você, que está com esse jornal na mão...
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia
O resto não passa de crônica policial – social – política.
E os jornais sempre proclamam que “a situação é critica”!
Mas eu escrevo é para o João e a Maria,
Que quase sempre estão em situação crítica!
E por isso as minhas palavras são cotidianas como o
[pão nosso de cada dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida
[na concha da mão.”




Sou tomado por um tipo de “Efeito Mário Quintana” após ler seus versos. São imediatos, chegam aonde precisam chegar sem esforço aparente, arregalam nossos olhos, são ágeis e cativantes, podendo reverter um conceito cristalizado na mente em pouco tempo. Faz daqueles que repudiam poesia, leitores ativos.


Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...



Além de uma poética repleta de imagens escolhida para guiar esse trabalho, o espetáculo é certeiro ao apostar nas coloridas gravuras de Zoravia Bettiol -> http://www.zoraviabettiol.com.br/, as quais possuem um dos traços mais infantis que meus olhos já viram, o que é um presente, pois Zoravia tem a liberdade de uma criança. Pablo Picasso disse que passou a vida inteira para aprender a desenhar como uma criança, imagine?




E se alguém consegue conservar por toda a vida a criança que tem em si, esse alguém será realizado e nunca envelhecerá.


As gravuras inspiradas no universo do poeta são impecavelmente projetadas em uma tela transparente, são explosões de cores dando forma aos poemas, cenário mais do que adequado para um monólogo de teor celebrativo. A atriz transmite essa mensagem das mais escusas formas que possamos imaginar, expressando-se com cada partezinha do corpo, cada músculo, cada articulação. Em determinada cena, é possível enxergar a silhueta e o movimento da água nos dedos oscilantes de Deborah, que opta pelo engajamento e pela fluidez entre verbo e gesto. O Quintana-Menino é visualizado em praticamente todos os momentos de Sobre Anjos e Grilos, como se houvesse uma necessidade por parte do poeta (e da personagem que encarna seus versos) de retornar à forma pueril de pensar e reagir.






Quando a figura magra e cheia de vida de Finocchiaro aparece pela primeira vez, avistamos um vulto branco rodopiando o chão do palco nu. O traje é lindo, iluminado, solto e leve o suficiente para as constantes travessuras que deixam qualquer adulto de espírito velho enlouquecido. O que se ajusta como uma luva quando posto ao lado da encenação: Deborah fala, pula, canta, chuta e berra como uma legítima criança revelando os mistérios da vida e seus próprios mistérios na vida. Sentado no teatro, pensei: “E essa mesma mulher fez uma puta extraordinária na outra peça, Vozes Urbanas! -> http://percebeoteatro.blogspot.com/2010/12/anseio-dos-momentos-mais-saudosos.html” Tendo o espírito da criança, a personagem vai bater na mesma tecla do piano quantas vezes for necessário, e se a tecla quebrar, parte pra outra! Uma delas há de liberar faíscas de verdade através do som. E é nosso papel a combinação harmônica dos sons para então libertarmo-nos das garras pontiagudas desse meio que humilha, reprime, detona.


Dizem que o poeta é produto do meio. Bobagem!
O poeta é um produto contra o meio.



E se um balanço for utilizado como auxílio, perfeito! A sensação é de que a atriz vai ser abraçada pela plateia a qualquer momento, sem dúvida uma dos enquadramentos mais líricos. Com tanto para recitar, nossa estrela precisou do suporte de um microfone hilariamente instalado na sua testa! Essa escolha pode provocar rejeição inicial, mas já digo, é só inicial. Depois que nos acostumamos com a voz da atriz e suas variantes, pouco importa se existe ou não microfone. O que importa é a palavra dita pela boca-mente-corpo-coração.






O roteiro, descobri, partiu das entrevistas de Mário Quintana. Foi essa a fonte principal para que os cataventos começassem a girar. Como eu disse anteriormente, os temas abordados pela caneta de Mário são muitos, indo de religião ao consumismo. Sempre lembrando que não importa se acreditamos ou não em Deus, mas se Deus acredita na gente.


- Que fazia Deus antes da Criação?
- Dormia.
- E depois?
- Continuou a dormir.
- Mas Ele não tem de cuidar do mundo?
- Ele está é sonhando o mundo: está sonhando até nós dois aqui conversando...
- Cruzes! Cala-te!
- Fala mais baixo...


Se Eu Fosse Um Padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
(...)
Porque a poesia purifica a alma...
um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!


O Supremo Castigo

(...) De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio, pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!


Depois dessa frase, surge no telão um vulto negro com as curvas do refrigerante mais famoso do mundo e milhares de pessoas ajoelhadas, venerando. A peça leva a plateia à loucura, arrancando muitas gargalhadas.





Outro tema que muito me marcou foi o progresso desenfreado, causador da aceleração cotidiana. Cada passo dado na rua tem de equivaler à um clique virtual: iniciar, enviar, entrar, conectar, compartilhar, publicar, sair, remover, cancelar, OK. É um novo formato de vida que, ao invés de ajustar-se, suga e escraviza o que vê pela frente. Mas é claro, como toda a regra tem sua exceção, toda situação pode ser revertida. É aí que Sobre Anjos e Grilos entra com toda a robustez sensível que o teatro carrega. Vai lá, Mário:


Ah! Os Relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

(...)

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...


Preparem-se para uma ligação inusitada: Rubem Fonseca. Ora, e por que não? Já que versei a respeito do progresso descontrolado, deixo aqui um fragmento que resume algumas conseqüências, retirado do inacreditável e corrosivo conto Intestino Grosso: “Estamos matando todos os bichos, nem tatu agüenta, várias raças já foram extintas, um milhão de árvores são derrubadas por dia, daqui a pouco todas as jaguatiricas viraram tapetinho de banheiro, os jacarés do pantanal viraram bolsa e as antas foram comidas nos restaurantes típicos.”


Outro tema que ficou gravado na minha cabeça foi o da evolução humana, sendo genialmente subvertido: ao invés da evolução a partir do macaco, o inverso! A personagem termina corcunda e aos pulos, guinchando. Antes dessa cena, ela fala sobre os grã-finos, indo da criança ingênua para um mulherão de voz grave e ridiculamente sensual: “-Ai, os grã-finos são tão... Ai, tão... São tão... PRIMITIVOS!





Dos Rituais

No primeiro contato com os selvagens, que medo nos dá de infringir os rituais, de violar um tabu! É todo um meticuloso cerimonial, cuja infração eles não nos perdoam. Eu estava falando nos selvagens? Mas com os civilizados é o mesmo. Ou pior até. Quando você estiver metido entre grã-finos, é preciso ter muito, muito cuidado: eles são tão primitivos...





Na poesia de Quintana “as coisas voltam a nos interessar, como se voltássemos a ser o recém-nascido no mundo. E em verdade vos digo: nunca deixamos de o ser”; palavras de Luis Fagundes do Amaral. Aí me pergunto por que nossa sociedade precisa consumir entretenimentos tão bombásticos? Sim, porque se o filme não tiver explosões colossais, milhares de tiros, mocinhos e mocinhas sex simbol, vilões cafajestes e a última cena com um beijo heterossexual; não serve. Será que o motivo é a falta de intensidade na vida das pessoas? A falta de aventura, de amar os simples prazeres da vida? Que, não esquecendo, são simples porque assim os deixamos ser. Acredito que muito possa ser... Temperado com a morte! Como disse o poeta.


O título da peça remete às palavras de Érico Veríssimo e aos poetas mortos. Entretanto a idéia de Quintana como um anjo – ainda mais se católico – é estranha. O poeta era bêbado e sarcástico, praticamente toda sua obra é permeada pela mais fina ironia.


Tratando-se de um monólogo, toda a informação é concentrada em uma única pessoa, então, pro balão não estourar, imagino que seja necessária muita disciplina por detrás do encanto cênico. Claro que a direção não precisa dividir o enfoque, entretanto a ausência de colegas pode agir de forma inibidora ou o contrário, arrogante. O que mais me atrai em monólogos é a autonomia que eles são capazes de promover ao ator, a independência. Sobre Anjos e Grilos foi o espetáculo que batizou a Companhia de Solos & Bem Acompanhados, nascida em 1993. O nome é maravilhoso, porque realmente, tanto nesta peça quanto na excelente Poisé Vizinha -> http://percebeoteatro.blogspot.com/2010/01/oi-ana.html , a protagonista está e não está sozinha, já que invoca a companhia da poesia, da vizinha Ana, do João e da Maria, do jovem professor de inglês.





Ao sair embriagado de letras do Teatro de Câmara Túlio Piva deparei com um senhor na frente do bar Pinacoteca levantando despudoradamente a voz para uma mulher:

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!



A peça atingiu alguma parte do senhor e por ali depositou sua semente. Pois também fui semeado, falta agora desabrochar. Mas isso é comigo. E com vocês!

Simultaneidade

- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.






ficha técnica
textos e poemas - mario quintana
concepção, roteiro e atuação - deborah finocchiaro
direção - deborah Finocchiaro e jessé oliveira
imagens - zoravia bettiol
trilha sonora original - chico ferretti
iluminação - fabrício simões e jessé oliveira
produção - daniela lopes e deborah Finocchiaro
realização - companhia de solos & bem acompanhados

29/01/2011

Profundo Ou Pro Fundo?




Não há como dizer que O Urso se enquadra na categoria de uma hilariante crítica ao comportamento de homens e mulheres. Não existem surpresas na adaptação do enredo, que, inclusive, é previsível. O Urso de Deborah Finocchiaro inicia com uma imagem barroca: a atriz Elaine Regina está sozinha no palco, recostada no divã negro em pose sensual, toda envolta por um véu escuro e um vestido levemente armado, transparente a partir da metade das coxas. O que é, no mínimo, estranho. Desde quando uma viúva que faz voto de fidelidade eterna deixa as pernas de fora? É como se a direção almejasse adiantar alguma coisa para nós. Alguma escolha estética que nada tem de clássica. E o fez bem feito. A mulher em questão – alta, pescoço comprido e cabelo muito curto – é o eu/fragmento/lado exaltado de Popova. Sim, porque na adaptação da diretora a protagonista é vivida por nada mais nada menos do que três atrizes! E três atrizes de calibre, sem dúvida. Tal escolha resultou em uma personagem inevitavelmente rica em sua multiplicidade conflituosa, contradizendo-se a todo o momento, o que pode ser verificado em Regina com sua personalidade exaltada, que mais tarde entra em conflito com as atitudes reveladoras da forma masculina de pensar e reagir. Como quando desafia o Credor – homem vivido por Elison Couto, ganhador do Prêmio Açorianos de Melhor Ator, o qual vem reivindicar uma velha dívida (de aveia!) deixada pelo esposo de Popova – mandando-o embora de sua casa com bastante calma, explicando a situação. É só depois que vem a veemência, a irritação e o descontrole cobertos por energia feminina.






Após a morte do marido, Popova trancafiou-se em sua casa prometendo castidade até surgirem suas primeiras rugas e seu rosto murchar, como flor esquecida pela água da chuva. Quando a iluminação de Fabrício Simões desoculta a viúva, ela está atirada no divã em uma lânguida, sofrível lamentação pela morte do homem. Desliza pela sala de estar com a leveza de uma bailarina, agarra o retrato do esposo e põe-se a chorar, sendo categórica ao dirigir-se ao mordomo (Sandra Alencar): “-Não recebo mais visitas! Esqueceu?”. O mordomo Luká e a direção de Deborah são os elementos que fazem valer à pena O Urso. Sandra Alencar está deliciosamente irreconhecível embaixo da corcunda e da forte expressão facial do velho mordomo. Não é por acaso que ele rouba as melhores – dentre poucas – cenas engraçadas. Isso porque Sandra tomou para si a linguagem do palhaço augusto (ingênuo, figura oprimida) e do mímico com aptidão. Meus parabéns!







O caso é muito diferente quando analisadas as atuações de Elaine Regina e Simone Telechi – indicada ao Prêmio Açorianos de Melhor Atriz -, que são propositalmente afetadas. O que, de partida, cativa, faz rir. Lembra Almodóvar com seu Abraços Partidos. Mas depois... Essa escolha é sufocada. E assim também é o percurso do humor. Tratando-se de uma comédia, o humor é a principal coluna de sustentação, é a base, o âmago de toda a vitória. Por isso deve se renovar constantemente, manifestar-se com fluidez e na medida certa, assim podendo alcançar um nível de irreverência desejado por todo artista que se preze. A veia cômica de O Urso nasce promissora, entretanto desenvolve-se de forma paupérrima, resultando em um humor rasteiro e caricatural. São tantas piadas e referências repetidas que mesmo a casa estando cheia, acaba não rindo. No geral, o público demonstra ter gostado muito de tudo o que viu, mas os momentos apelativos não podem ser contrariados. Um bom exemplo são as insistentes piadas do Credor, envolvendo a ridicularização feminina e os estereótipos da guerra dos sexos. Sátiras não precisam ser rasas, pode-se satirizar com inteligência também.






É notável a ousadia em montar uma comédia de costumes clássica - do russo Anton Tchekhov – de forma não realista. Há diversos pontos altos, destacando aqueles em que a iluminação é densa e colorida, assim causando uma atmosfera ritualística cujo elenco demonstra sincronia perfeita ao concentrar suas emoções no movimento, ao permitir que o corpo descondicionado esteja livre para dizer o que bem entender. Com, obviamente, uma fina e invisível linha guiadora, tecida por Deborah ao dirigir impecavelmente essa peça, ganhadora do Prêmio Açorianos de Melhor Espetáculo em 2003, ano em que o Grupo dos Cinco surgiu. Estes pontos positivos, todavia, são ofuscados por uma avalanche (não em quantidade, mas em qualidade) de pontos baixos. O estereótipo da mulher-menina dissimulada, de voz agudíssima e trejeitos infantis é demasiado cansativo. Difícil não levar a sério, abstrair o temperamento afetado e ininterrupto das atrizes, encontrando o auge da afetação em Simone Telechi, a posição intermediária em Elaine Regina e a exceção em Sandra Alencar, que pouco aparece como Popova, sendo a mais sutil das três facetas, de estaura baixa, capelos compridos e ondulados. O corpo das atrizes encaixa-se como uma luva nos papéis/personas que desempenham!






No fim, Popova acaba se apaixonando pelo antes repugnante Credor, sendo comparado com a figura do urso: grande, forte, difícil de contrariar e resistente. Pouco antes da metade da peça ele já confessa seu sentimento de paixão para a plateia, e não é a primeira vez que se dirige a ela, são várias as perguntas e constatações direcionadas ao espectador. Mas antes da protagonista cair em seus braços, ela dá um show de meninice. Fazendo questão de duelar com o urso, apenas que... Bom, ela não sabe usar as armas, então será que ele poderá ensinar? Diz isso lançando um olhar de fêmea fatal irresistível para qualquer urso, até mesmo os mais dóceis. Popova mascara seus desejos, mas acaba se entregando. Diferente de mim, que não achei brecha para me entregar à peça. Com a exceção de alguns momentos.

Ficha Técnica

texto - anton tchekov
elenco - elaine regina, elison couto, sandra alencar e simone telecchi
direção - deborah finocchiaro
iluminação - fabrício simões
concepção e montagem de trilha sonora - edinho espíndola e marcelo figueiredo
produção e realização - patrícia soso e grupo dos cinco
assessoria de imprensa - sandra alencar

21/01/2011

Pseudo Impacto, Real Frustração



Se o hibridismo é uma violação das leis naturais, fica bem claro o porquê da peça em questão intitular-se “Hybris”. Porque viola os conceitos do teatro convencional. Oposiciona-se à tradição através da ousadia. Podendo ser esta criativa ou rasteira, construtiva ou destrutiva, original ou apelativa. Terminei de assistir “Hybris” agitado, não por empolgação, estava decepcionado. Minhas expectativas foram esmagadas e tive certeza de que a peça verte mais para o segundo caso de ousadia. O título também se refere – e talvez principalmente – ao conceito grego de desmedida, o personagem é tomado por um sentimento exacerbado. Um dos componentes da tragédia grega que revela provocação aos deuses e à ordem estabelecida. Também “pathos” – raiz de paixão e patologia – são as conseqüências terríveis do descomedimento humano.

O material de divulgação, o grupo envolvido, o tema, o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, a locação escolhida; tudo arremessava “Hybris” às alturas, lançando-se como um projeto promissor. E essa imagem foi sendo nutrida e ganhando força quando cheguei ao imenso Hipódromo Cristal, o qual ostentava vestígios de um glamour agora decadente: carpetes vermelhos, poeira, luminárias pomposas e paredes de vidro. Inaugurado em 1959, o prédio é considerado uma obra-prima da arquitetura brasileira e uruguaia. Os espectadores são guiados a um estreito túnel, onde há espaço para um de cada vez. Essa situação adianta a importância que o grupo deposita em sua plateia, elemento fundamental para suas constantes investidas – sim, porque aqui o termo “interações” me parece mentiroso. Adoro provocações de qualquer espécie, de outra forma não iria tão frequentemente ao teatro. Quem vai ao teatro aceita ser provocado, mas isso não significa que o ator tem a liberdade de fazer o que quiser com o espectador. Em “Hybris” somos abraçados, apalpados, esfregados, cutucados. E não pense que vá receber um olhar antes disso acontecer, uma bailarina nua correrá em sua direção esperando receptividade. O resultado? Tensão. E esta sufoca qualquer fagulha de reflexão ou plasticidade. O impacto visual existe, mas é um impacto morto, agressivo, banal. Tirar a roupa de um ator é fácil, o difícil é construir a intenção.

A cenografia é vislumbrante, são painéis escuros e claros que servem de paredes móveis guiadas pelas mãos dos atores. As instalações possuem um nível de abstração comparáveis às obras lúdicas da 7ª Bienal do MERCOSUL. “Ao propiciar o encontro entre o arcaico (personagens, enredo) e o contemporâneo (cenário, temática), o dramaturgo compõe uma unidade híbrida, na qual o teatro, a dança e as artes visuais dialogam com fluidez”. A trilha sonora é alta e sinistra, mesclando sons metálicos e gélidos. Todas as personagens surgem de modo inusitado: nascem através das frestas das paredes, atravessam cimento. As bailarinas diferenciam-se das personagens principais pelo figurino estilizado, um vestido cinza delineando perfeitamente as curvas do corpo, flexível e rutilante, escolha muito adequada. Estas figuras embaçadas permeiam o foco narrativo que se inicia com uma mãe de vestido vermelho resplandecente tentando pentear sua filha violentamente. Presenciamos então o estupro da menina pelo pai e mais tarde o desejo desta de ganhar uma prova de amor: um assassinato cometido pelas mãos de seu noivo. O restante do elenco representa o Calibã (único vestígio restante da idéia original de montar “A Tempestade”, de Shakespeare), o Crente e a Entidade, envolvendo-se em acirradas discussões – com teor cético – sobre uma sociedade que pôs em risco sua própria existência.

A derrocada de “Hybris” se dá logo nas primeiras falas. Não bastasse um texto com temáticas já muito revisitadas, o elenco não mostrou preparo cênico. É claro que eu não digo preparo físico, este foi muito bem explorado, principalmente pelo enfoque circense do grupo Falos & Stercus. Me refiro à preparação de ator, à organicidade, à presença cênica, à impostação de voz e, enfim, o texto dado com verdade, com o corpo e o coração, e não o texto lido. A partir do momento em que os atores e as atrizes abriram a boca, a atmosfera promissora em conjunto de todo o trabalho artesanalmente alcançado é engolido. E quando tenta voltar é sempre com a mesma fórmula equivocada: impactar. Posso muito bem considerar as palavras do diretor Marcelo Restori: - Estamos dizendo, no fundo, que qualquer discurso hoje é vazio se não vier impregnado de uma ação. Porque muito texto no teatro também é demagógico. Entretanto, o que temos aqui é um discurso dito de forma vazia.

Somos então conduzidos ao andar superior pela Dama das Paredes: é como se adentrássemos o habitat de uma enorme aranha mitológica responsável pelos elásticos negros que bloqueiam nosso caminho, similares a uma teia de aranha que cobre o andar inteiro. No final da cena, um susto: as atrizes somem pelo precipício. E o mais incrível é que elas não se jogam, flutuam. E o encanto não é perdido quando descobrimos que há chão firme, pois as bailarinas - e o Calibã - realmente flutuam ao exibir suas habilidades penduradas no teto em uma belíssima cena de rappel. Ao longe, Porto Alegre transformada em paisagem noturna, vastamente iluminada. Impossível esquecer o ator Federico Restori, que interpreta o Calibã-Menino em diversos flashbacks, devido ao seu excelente desempenho. O menino de doze anos dá um show de interpretação, cativando e persuadindo o público. Suas falas são bem articuladas, nenhum gesto parece artificial. O que ele passa é justamente naturalidade, inclusive quando dá o texto aos berros: - Os pais existem para proteger os filhos, e não serem responsáveis pelo sofrimento deles.

No fim, saí apressado do teatro. Talvez, porque até agora tinha assistido a bons exemplos de teatro contemporâneo ou talvez porque tinha meu corpo todo picado por mosquitos. Um pouco dos dois.

Ficha Técnica:

Direção e dramaturgia: Marcelo Restori
Elenco: Carla Cassapo, Fábio Cunha, Luciana Paz, Fábio Rangel, Alexandre Vargas e Jeremias Lopes, Bia Noy (atriz recém chegada de Paris, onde atuou por 5 anos), Fredericco Restori (ator mirim)
Bailarinas: Aline Karpinski (também coreógrafa), Iandra Cattani, Ju Rutkowski, Carol Dias e Fabi Martins
Coreografia: Aline Karpinski
Cenários e ambientações: Luiz Marasca.
Trilha especialmente composta: 4 Nazzo e Cláudio Bonder
Desenho de luz: Veridiana Matias
Elaboração de projeto: Alexandre Vargas
Ass. de produção; Elenice Zaltron
Preparação vocal: Marlene Goidanich
Maquiagem: Juliane Senna
Resp. pela prep. de rappel: Fábio Cunha
Videos: Coletivo Incosciente (Frederico Ruas.e Zeca Brito)
Fotos e arte: Fernando Pires
Figurinos: Daniel Lion
Produção, divulgação e realização: Falos & Stercus

09/07/2010

Estímulo Sonoro



Uma relação não se faz inflexível somente porque o desejo sexual existe, é palpável e inerente. O outro será figura eterna, indispensável. A ausência do outro é a reclusão, o sufoco, a não-relação, a não-ligação. Todo e qualquer um precisa formar relações, entranhar-se, deixar sua marca no outro, seu cheiro, seu carinho, seu mal humor, sua energia, seus caprichos, sua gentileza. A abstenção do contato humano é a renunciação da vida, entretanto o desapego não dura muito tempo: antes ou depois, relaciona-se, liga-se. Krzysztof Kieslowski e Juliette Binoche deixam isso claro - cristalino - em "A Liberdade É Azul" (1993).

"Inflexíveis Ligações", montagem do grupo Bacantes, não tem voz. "As Bacantes" é uma tragédia grega, de Eurípedes. A verbalização se dá no corpo, são duas mulheres e três homens com apenas uma, porém complexa, linguagem: a do corpo. E aqui as formas codificadas - cuja preparação é notável, parece que estamos num picadeiro em meio a acrobatas - tem o teatro, a dança e o circo de mãos dadas. Uma peça sem início, meio e fim é, geralmente, performática. Nesse caso ritulística também. Se o coração dela está no corpo dos integrantes, aonde estaria a cabeça? Na música. É a trilha sonora bem diversificada (música clássica, pop, oriental) a qual rege cada partezinha da peça, formando crateras no ritmo/andamento quando se faz ausente. Os estímulos sonoros são de máxima importância, assim como no "Contato Improviso", utilizado principalmente na dança contemporânea. "Inflexíveis Ligações" só respira com a regência musical, sem ela, atrai aves de rapina.

Peça interativa? É apelido! Vai ser difícil não ser tirado para dançar por um dos integrantes, mas saiba dançar, do contrário é mandado de volta ao seu lugar. Ousadia se retribui com ousadia, portanto alguns aceitaram a interação, fizeram parte da peça. Essas interações constantes objetivam romper as paredes ficcionais do teatro (ou simplesmente a quarta parede), igualando a relação ator-ator com a de ator-público.

A sexualidade é tema recorrente, assim como suas consequências: ciúme, traição, superioridade do macho, agressão e amor. Posso dizer, sem receios, que fiz parte do clímax desta peça: eu, e todos os outros que assistiam, fomos levados para o centro do palco. O casais foram surgindo, dançando, se divertindo, até que o espaço começou a ficar estreito, um aglomerado de pessoas e cheiros foi formado devido as correntes que nos circundavam. A música, naturalmente, esteve muito presente. Viva ao teatro sinestésico!

Antes de terminar, quero comentar a respeito do figurino e da maquiagem: foi estabelecido um choque entre esses dois elementos. O primeiro era clássico: ceroulas e camisas com babados. O segundo, em contrapartida, era moderno: cores berrantes cabelos arrepiados. Saí do Teatro de Câmara Túlio Piva com a certeza de que passei por uma experiência gostosa, corporal, sonora.

Ficha Técnica
Elenco: Diana Corte Real, José Renato Lopes, Edgar Benitez, Magda Schiavon e Marcos Rangel
Direção: Edgar Benitez
Figurinos: Fabrizio Rodrigues
Divulgação e Produção: o Grupo

10/06/2010

Minhoca de Açúcar

"Betsy tem uma irmã, Ringo tem Betsy, Multscher não tem nada. Ringo quer continuar, Multscher quer alguém, Betsy quer ir à praia, Petrik quer ser uma cobra e Friederike não quer."



Demorei para entrar no auditório do Instituto Goethe, em Porto Alegre, e acredito que também vá demorar para esquecer da primeira vez que o fiz. Não que a peça teatral "Parasitas" - motivo da minha ida - tenha sido excepcional. Acontece que o cenário causou em mim um impacto inesperado: fiquei bobo, embevecido. Claro que eu sabia que aquela nuvem colossal atrás dos atores, sustentada por hastes metálicas, não passava de um monte de algodão. E claro que eu sabia que nada do que os atores diziam ou faziam era verdade. O que eu olhava, escutava e sentia... Era teatro. Não importa, para mim aquela nuvem podia muito bem esguichar água, raios ou granito. Acreditei piamente na força, literal ou simbólica, da nuvem que brilhava, cujas cores dos holofotes demarcavam os distintos estados de espírito das personagens.

O parasita está sempre em estado de alerta, a ponto de surtar. Apenas sugando o outro que a paz lhe é concedida. No entanto, é um ser dependente, nunca parece estar completamente saciado. Faz da vida uma procura árdua, motivado pela insatisfação.

Feliz foi o dramaturgo alemão Marius Von Mayenburg quando criou as personagens e o enredo de "Parasitas": depois de ter causado o acidente que deixou Ringo paraplégico, Multscher não consegue mais dormir, mostra-se frágil, arrependido e, principalmente, um ser desperto que não consegue lidar com a culpa. Petrik violenta a mulher e tem obsessão por uma cobra (com a qual alimenta uma complexa relação), revelando amor (ou seria dependência?) pela mulher Friederike somente quando essa parte. Ringo fica aos cuidados da namorada Betsy, uma flor despetalada, sempre com o mesmo tom histérico e afetado. É ela quem hospedará tanto a irmã suicida (Friederik), quanto o velho Multsche. Posta a mesa, que comece o banquete. Sim, porque aqui um come o outro; não fosse isso, teriam uma nuvem negra cuspindo a mais violenta tempestade em suas cabeças.

Em "Parasitas" tudo é e não é. E uma vez que o diretor não se importa com isso, nós tampouco. Petrik é o homem de Friederik, mesmo sendo uma mulher; Friederik não tem barriga mas está grávida; Ringo é um paraplégico que pode andar e Multscher é um velho, ainda que jovem e vigoroso. A não presença de certezas ou concretudes parece se encaixar perfeitamente com a concepção estética e dramatúrgica de João Pedro Madureira, já que é moderna e não-linear. Não tem início, meio, fim ou solução.

Ringo quer continuar porque não acredita que este seja o fim, não suporta o fato de estar trancado em sua própria casa e ser obrigado a travar constantes discussões com a namorada. Leo Maciel teve de trabalhar a articulação vocal acima de tudo, suas falas eram extensas e corridas. Betsy quer ir à praia e não alimenta discussões com Ringo porque vive na superfície de tudo. Laura Leão tinha o que precisava: carisma e energia. Multscher não tem nada porque passou a maior parte da vida "dormindo" e, uma vez acordado, é uma criança à procura de redenção e carinho. Francisco Gick sabe narrar uma história e usar o corpo com organicidade, creio que a não construção do biotipo de um "velho" tenha sido orientação por parte da direção. Petrik quer ser uma cobra por não se adequar à uma vida civilizada, regrada. Priscila Collombi, assim como Francisco, não buscou trejeitos masculinos para a composição de seu papel; gostei do resultado final. Friederik diz que não quer, mas engana: deseja que os outros queiram que ela, suicida, viva. É sarcástica e ríspida, também desgostosa; destaque para a cena em que está deitada e dá o texto sem completar as últimas sílabas da maior parte das palavras. Esta, e uma das últimas cenas, em que aparece nua e molhada na porta vitral, são ilustres exemplos da força e da beleza plástica do espetáculo. Patrícia Soso tem em mãos Friederik, a personagem que se apresenta mais complexa e profunda, elementos que auxiliaram a atriz em sua performance notável, mais que isso, hipnótica.

Também é alvo da minha percepção teatral os símbolos contidos na assim chamada refeição das personagens: garrafinhas com líquido azul claro e jujubas em forma de minhoca, que serviram como material de divulgação. As garrafinhas que eram jogadas de mão em mão representavam a dinamicidade do diálogo e o pão, pelo qual nasciam os conflitos. As jujubas coloridas são, no mínimo, zombeteiras; como se quisessem ironizar as relações amargas com seu açúcar. Quanto às minhocas, não importa quantas vezes você as corta, elas continuam a deslizar sobre você.

Um rótulo coerente seria o de "Teatro pós-dramático": http://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_p%C3%B3s-dram%C3%A1tico

"O espaço cênico como área de confronto, de encontro, tátil talvez, sinestésico com certeza. O olhar que recebe o olhar do outro, que também olha. O olhar se vê no olhar do outro. Não há como desviar. Todos são reagentes."
Marius Von Mayenburg




Ficha Técnica
Direção: João Pedro Madureira
Concepção: João Pedro Madureira e Maria Luíza Sá e Madureira
Elenco: Francisco Gick, Laura Leão, Leo Maciel, Patrícia Soso e Priscila Colombi
Produção: Laura Leão
Roteiro: O grupo Vai!Cia de Teatro
Cenário: Leonardo Fanzelau
Figurino: Daniel Lion
Iluminação: Gilberto Fonseca
Cabelos: Elison Couto
Maquiagem: Taidje Gut
Fotos: Betânia Dutra
Design Gráfico: Didi Jucá
Assessoria de imprensa: Sandra Alencar
Assistente de Produção: Carolina Kern
Patrocínio Instituto Goethe e Prefeitura Municipal de Porto Alegre

20/04/2010

Pompa de Porca



"Mães & Sogras"
ainda me soa como um título banal. Demorei para decidir se investiria ou não no ingresso da peça de Marcelo Adams. Pois investi, e valeu. Por mais que não consiga acompanhar do início ao fim, sou apaixonado por textos astuciosos – com longas falas e muita informação – como este, de Leando Sarmatz. É o tipo de texto que, com a dramatização de Margarida Leoni Peixoto e Naiara Harry, nos deixa com a sensação de tontura, provendo barris de informação que vão se entralaçando até formar o produto final: a frustração materna e a loucura.

Retratando as situações trágicas e cômicas da classe média judaica no Brasil, Adams dirige a peça sendo delicado e suficientemente cuidadoso, sabendo utilizar artifícios, como a barra de metal na composição do ônibus lotado. Sua esposa, Margarida, encarna Bella Molodóvski, a figura típica da mãe judia: superprotetora e rancorosa. Não suporta ser rejeitada pela nora (Carla Gasperin), principalmente quando esta “rouba” o afeto do filho Roberto e, pior ainda, não é judia. O preconceito também é uma característica muito forte da classe média retratada, esses imigrantes da Europa Oriental que fugiam em busca do desejo de qualquer ser humano: uma vida melhor.

Amicíssimas há anos, Bella e Anita (Naiara Harry) revelam-se perplexas – mais que isso, horrorizadas – com a situação da juventude e com os novos valores. Elas fazem questão de exibir a preocupação com muitos exageros e sempre desviando para fofocas mesquinhas, proporcionando uma atmosfera burlesca e satírica. Especulam até mesmo o presunto gordo comprado por um viúvo no supermercado! Anita tem a aparência de mulher mais cansada do que a amiga, a maquiagem e a voz delineiam isso muito bem. O cenário fixo é o mesmo, inclusive me intrigava, era um paredão de fundo com radiografias gigantescas expondo partes do esqueleto humano, imaginei que isso tivesse alguma ligação com as centenas de doenças cantadas na primeira canção: “A Gente Se Conhece Há Tantos Anos!”. Já o cenário móvel vai de sala de estar até supermercado.

As gargalhadas do público minguado custaram a vir, acredito que o ponto de partida foi a cena do chá: Bella e Anita, as amigas avarentas e desconfiadas, devoram bolachinhas e bebem chá ao passo que, empanturradas, prosseguem com a monotonia de sua conversa. O triunfo do humor é o tempo. As gargalhadas só vieram com a eloquência do silêncio das madames, nas pausas do diálogo. São momentos em que nos preocupamos com o que vai ser falado a seguir ou simplesmente refletimos a respeito do assunto anterior. O modo como as duas comem e falam dos outros, revelam duas porcas em potencial. É ridículo. É ótimo.

O derramamento sentimental de Bella Molodóvski é um dos pilares de “Mães & Sogras”. Martiriza-se por ter sido trocada pela nora e sente-se mal agradecida pelo filho. Ela, que tanto sacrificou-se pelo aconchego do filho, agora não recebe sequer uma carta, uma vez que Roberto e sua mulher (grávida) mudaram-se para os Estados Unidos há quatro anos atrás. Acontece que Bella não admite pra si mesma que a reação do filho repousa encima da ação dela, já que foi categórica ao dizer que não queria ver de perto a filha de uma mãe gói (sua nora), menos ainda a própria gói. A ausência do filho Roberto formou uma mulher dissimulada e muito fragilizada por dentro. Tanto que, no último ato, Bella enlouqueçe tornando-se esquizofrênica. Nesse ponto, a linha entre o que é trágico e o que é cômico é delgada.

Ficha Técnica
Texto: Leandro Sarmatz
Direção: Marcelo Adams
Elenco: Margarida Leoni Peixoto, Naiara Harry, Carla Gasperin, Claudia Lewis e Rafael Ferrari
Cenografia: Rodrigo Lopes
Figurinos: Rô Cortinhas
Iluminação: Fernando Ochôa
Trilha sonora: Marcelo Adams e Rafael Ferrari
Produção: Cia. de Teatro ao Quadrado e Rodrigo Ruiz
Coreografias: Carlota Albuquerque
Fotos: Júlio Appel
Criação gráfica: Dídi Jucá
Bilheteria: Renata Savaris
Sonoplastia: Rodrigo Ruiz
Divulgação: Bebê Baumgarten
Financiamento: Fumproarte
Patrocínio: Banrisul
Realização: Cia. de Teatro ao Quadrado

02/04/2010

Alice de Lã



“Alice” não quer contar uma história com início, meio e fim. Não quer ter moral da história. A Cia. Espaço em Branco inspira-se na Alice de Lewis Carroll, mas não pretende contar uma fábula. Falando em pretensão, nos minutos iniciais de espetáculo, projetei o desenvolvimento que viria: uma montagem experimental e pretensiosa. Sim, carregada de poesia, mas ainda acorrentada ao esboço. Pois digo que me precipitei, “Alice” não pretende tanto. É simplesmente inovadora. Diverte fazendo refletir, toca interagindo.

Sissi Venturin cria um belo mosaico ao realçar (a dedo) fragmentos da obra original, o que geralmente funciona e é legítimo, proporcionando um espaço de liberdade muito amplo. Parte da plateia é formada pelos convidados da festa do chá, os quais celebram o desaniversário de cada um. Entretanto não é chá que Alice serve aos convidados, é seu próprio coração. Coração este (cheio de nuances), posto no liquidificador junto com açúcar, já que sua essência é amarga. Partindo para outro exemplo da liberdade criativa sendo usada de maneira adequada, recordo da cena em que Alice rompe a barriga soltando um grito estridente: jorram marshmallows em forma de coração, e ela, paralisada sobre o palco (que nem é palco, uma vez que há nivelamento entre atriz e plateia), diz apenas: “Coma-me”. Trata-se da celebração do corpo e do sangue como tentativa de unificação, aliás, são promovidas várias tentativas de união atriz-plateia. Outra que me vem à mente é a do poder ofertado ao público de libertar Alice de suas amarras, pois ela enovela-se com lã vermelha já no início do espetáculo.

Inclusive, a lã apresenta-se literalmente como fio condutor da “narrativa”, carregando a simbologia do emaranhamento em si mesmo. Ao adormecer, Alice cai na toca do coelho branco - seu inconsciente. Ali contempla um mundo maravilhoso e desconhecido, onde sente-se enrolada à mercê de tanto absurdo. Então surge o despreparo emocional, levando-a a desejar o retorno ao consciente - sua casa.
Sissi Venturin aventura-se ao interpretar os personagens principais, acertando em cheio na pantomima da lagarta fumante e na composição da rainha de Copas. No entanto, não foram raras as vezes em que me incomodei com a estridência do registro vocal da atriz (que também é a diretora). A voz afinada é um requisito para qualquer cantor, assim como a voz trabalhada e agradável de se ouvir deveria ser um requisito para qualquer ator. Fica a dúvida, pela excelência do trabalho, se a estridência é proposital ou não. De um modo ou de outro, o desconforto é recorrente.

“Alice” me levou à reflexão. O autoconhecimento, o olhar-se no espelho, tem suas intempéries. Quando abrupto, causa rejeição, sente-se vontade de regurgitá-lo. É justamente isso que ocorre à Alice quando mergulha em seu inconsciente e se depara com ela mesma, sendo a primeira reação o vômito e o mal estar. Amei a imagem derradeira do espetáculo: uma vez reunidas as lãs dos pratos dos convidados no vestido da Rainha de Copas, ela sai de cena levando consigo o fio condutor da “narrativa”. Afinal, todos os caminhos pertencem à rainha.

Ficha Técnica
Direção e Atuação: Sissi Venturin
Iluminação: João de Ricardo
Operação de video e áudio: Leonardo Remor
Direção e Arte dos vídeos: Sissi Venturin e Leonardo Remor
Fotografia e Montagem dos Vídeos: Tiago Coelho
Finalização de vídeo e áudio: Marcos Lopes
Ilustração e Design Gráfico: Talita Hoffmann
Colaboração criativa, afetiva e intuitiva:
Marina Mendo, Leonardo Machado e João de Ricardo.

21/03/2010

Pela Sagacidade do Público



Se não para deixar os aparelhos televisivos fora do ar, no mínimo a peça de Felipe Mônaco incentiva a deixar a televisão desligada, ou menos ligada. Quando digo televisão me refiro à TV aberta nacional. Não sou a favor da alienação, mas é inegável que as emissoras brasileiras estacionaram sua grade de programação, limitando-se à repetição exaustiva de temas, ao formato padrão e apelativo, tudo em nome da dependência mercadológica. Hoje em dia chega a estar cristalino o que se vende e o que não se vende; a denúncia e a crítica social não se enquadram na primeira opção.

O ritmo da peça "FORA DO AR" reflete o ritmo do objeto parodiado, a televisão. Não existe o aprofundamento das questões, é uma forma rasa e superficial de comunicação. Sentado no Teatro Bruno Kiefer, me sentia com a posse de um controle remoto que mudava os "canais" da peça constantemente.

Não há cenário, figurino ou apetrechos. É o ator com seu trabalho e seus parceiros em cena. E que bom, porque em meio a tanta agilidade e paródia televisiva, ficaríamos tontos se o Grupo do Play tivesse optado por troca de figurino e etc. Nenhum dos quatro componentes parece carecer de qualquer bengala cênica. Não há protagonistas nem coadjuvantes, a estrutura narrativa se estabelece como um emaranhado de personagens que sintetizam a programação da televisão nacional.

De cara a peça já inicia com um programa de "assistencialismo" familiar e profissional, pretendendo resolver o conflito entre o filho (Cassiano Fraga, em processo de amadurecimento cênico) aspirante a ator de teatro, e os pais, preocupados com a consequência financeira da escolha. O pai (Felipe Mônaco, com notável carisma e desprendimento) alega que não se pode festejar e usar batom pro resto da vida. É aí que a mãe (Patrícia Soso, segura de seu talento cômico) se pergunta onde ficam os sonhos, se não deveríamos seguir o coração. Os telespectadores, ao ligarem e fazerem perguntas/opinarem, tomam parte do conflito alheio com determinação e entusiasmo. Por alguns minutos podem reger a vida do outro, sentem-se como deuses. O apresentador (Leonardo Barison, cuja atuação me surpreendeu: bastante convincente) aproveita qualquer deixa da família em questão para propagandear produtos comerciais.

A televisão é o império da imagem. Um ator com 20 anos de carreira pode muito bem ganhar o mesmo, se não menos, que um modelo estreante. Pior do que os ganhos é a baixíssima repercussão do trabalho, quando este se repete em figurações ou participações pingadas, com duas ou três falas. É muito engraçado observar o estereótipo do diretor estressado, o ambiente caótico do Projac e os envolvidos sendo tratados não como profissionais, mas como produtos. Se ri da humilhação.

É fácil distinguir uma emissora da outra pela padronização instaurada. Aqui temos o auge cômico do espetáulo: o SBT e seus programas de auditório com apresentadores afetados, honrando o camelô dourado de Silvio Santos em uma atmosfera patética, isso sem falar dos dramalhões mexicanos; a Record apostando na exploração da violência das favelas e a Globo com suas novelas de alta qualidade técnica, mas atadas ao modelo de intrigas amorosas com divisão maniqueísta das personagens.

Frente a situação absurda que se encontram nossas redes de Televisão, "Fora do Ar" é um grito pela sagacidade do público de telespectadores.