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05/03/2011

Transformação Alcoólica





Durante o regime comunista do Leste europeu, o asqueroso Mestre-cervejeiro (Margarida Leoni Peixoto) deseja obter segredos do seu funcionário (Marcelo Adams) abusando de todo o alcance de sua autoridade. Seja à força ou através da sugestão, em Goela Abaixo ou Por Que Tu Não Bebes? O caminho da cerveja está garantido.



Não somos amigos?
Sim, sim.
Então beba!




Um dos mais significativos diferenciais dessa montagem de muito bom gosto é o que vem junto da entrega do ingresso: uma cerveja! É claro que a plateia não fica embriagada como as personagens, não se trata disso, o genial está na sugestão que o ato de beber promove, uma vez que o Mestre Cervejeiro não fala mais que 30 palavras sem oferecer cerveja ao empregado. A sensação é de aconchego, de atmosfera claramente envolvente, firme, por isso não há como distanciar-se das convincentes personagens russas cobertas por grossos casacos para enfrentar o inverno europeu. E para que essa linguagem saísse vitoriosa, me pergunto: há lugar mais adequado do que o Teatro de Arena? Olha, difícil. A plateia distribuída pelos três lados consegue enxergar aos outros e fica a poucos metros dos atores, portanto sendo convidada a relaxar e penetrar Goela Abaixo ou Por Que Tu Não Bebes?, cujo cenário é magnífico: sujo, simples e bem utilizado. Em frente a uma bandeira do socialismo, há uma pilha de garrafas cintilantes formando uma figura geométrica; uma escrivaninha tomada por papeis, uma família de baratas mortas e garrafas com cerveja até o gargalo; um balde velho e uma porção de luminárias no teto.






O regime comunista não foi explorado nem parcamente, assim como o potencial do roteiro, que se mostra maçante, banal e repetitivo. Cai diversas vezes no lugar comum, porém estou certo de que se trata de uma escolha proposital. Inegável dizer que isso acaba ofuscando todos os outros pontos positivos. Como teatro de ator, orgulha! Quem segura as pontas do roteiro é Margarida Leoni Peixoto, aqui muito diferente de como estava em Mães & Sogras. É uma atriz maravilhosa, podendo ser comparada à Arlete Cunha, que também demonstrou muito talento ao encarnar uma personagem masculina em Sonho de Uma Noite de Verão, montagem do clássico de William Shakespeare genuinamente executada pela Cia do Giro. Estas duas atrizes agarraram seus papéis e driblaram o obstáculo sexual com afinco e êxito. Margarida encontrou a voz ideal, o corpo ideal, as reações ideais e os tiques ideais (destaque para a língua maliciosa que saía da boca diversas vezes e as sobrancelhas inquietas). Marcelo Adams não chama tanto foco quanto ela, ele está afiado é na direção do espetáculo. Em tese, seu personagem nem deveria chamar atenção, pois é a figura oprimida do jogo de opressões que se instala no escritório encardido do Mestre Cervejeiro. O ator brilha principalmente quando é obrigado a aceitar os incontáveis copos cheios de cerveja e bebê-los com muita dificuldade, literalmente goela abaixo, ainda que seja diminuído quando sua companheira ergue a voz. Não somente porque ela é a figura dominante, mas porque a construção de sua personagem é muito mais crível e resistente, cativa o espectador. Bons exemplos são duas cenas que poderiam ser repetidas milhares de vezes conservando sua carga de comicidade: a cena em que o Mestre apalpa o sexo e corre em direção ao banheiro, congelando em frente à bandeira na posição de líder comunista, soltando uma risada grave e embriagada; e a cena em que ele resgata duas baratas do balde cinzento e continua seu discurso pessimista em relação à humanidade, gesticulando com as baratas no ar, em seus olhos e quase jogadas encima da plateia. A sensação é de que fazemos parte ativa do espetáculo, podendo inclusive ser atingido pelo cadáver de uma barata.




Mais perto do final, com ambos já tropicando e soluçando, podres de bêbados, surgem jogos de divertimento como acertar bolinhas de papel no balde ou confessar segredos debaixo da escrivaninha. Sob efeito do álcool, o empregado consegue finalmente rebater as palavras do Mestre Cervejeiro, demonstrando também possuir uma voz e a possibilidade de se impor. Mas em minutos, após essa demonstração de força, cai no choro. Lamenta sua posição, o trabalho que exerce, a vida que leva. Nesse momento as personagens trocam de chapéu e com este adereço do figurino vai junto todas as nuances da personagem, provavelmente para explicitar que um pode tomar o papel, e portanto as características do outro.


Ficha técnica
Texto: VACLAV HAVEL
Direção: MARCELO ADAMS
Elenco: MARCELO ADAMS e MARGARIDA LEONI PEIXOTO
Cenografia: MARCELO ADAMS
Figurinos: RÔ CORTINHAS
Iluminação: FERNANDO OCHÔA
Trilha sonora: MARCELO ADAMS e RAFAEL FERRARI
Fotografia: JÚLIO APPEL
Produção: RODRIGO RUIZ e CIA. DE TEATRO AO QUADRADO
Realização: CIA. DE TEATRO AO QUADRADO
www.marceloadams.blogspot.com
Duração: 80 minutos
Faixa etária mínima: 12 anos


01/03/2011

Chama Acesa




O Pigmalião de Leandro Ribeiro é longo, simples, audacioso, fílmico, e cansativo. Passei inquietas duas horas dentro da Sala Álvaro Moreyra, esperando uma reviravolta, uma lufada revigorante de energia que dissipasse o tédio causado por grande parte das cenas, ainda que o figurino e o cenário sejam prova de heróica resistência à falta de incentivo e dinheiro. O texto dramático de George Bernard Shaw, a partir do qual a montagem traçou sua linguagem cênica, não foi decisivo para consolidar o quadro decepcionante que Pigmalião acabou se revelando, e sim os que respiraram o ar das personagens de Shaw: o elenco. Talvez a aparição do potencial dramático de um ator seja contestável em apenas uma encenação, assim como ela não define se um ator é bom ou ruim. Ou melhor, se está bem ou mal, porque tudo pode ser trabalhado para futuras conquistas. Agora, se eu, na posição de quem analisa o objeto artístico com imparcialidade e concentração dissesse que o elenco da peça desempenhou interpretações verdadeiras ou mesmo admiráveis, não estaria fazendo jus à minha posição, estaria enganando o leitor, e o que é ainda pior, passando a mão aprobativa na cabeça dos atores e atrizes. Esta não é, de forma nenhuma, minha função. Meu dever é configurar-me com um apurado olhar externo, que expressa suas percepções a respeito do que vê, relaciona com outras linguagens, pesa argumentos, filtra considerações e procura manifestar-se com distância, livre de contaminações.



Grosso modo, o elenco de Pigmalião deixa perceber sua aspiração às artes cênicas, entretanto, erra a fala, esculpe a caricatura, fica de costas para a plateia, fala para dentro, força determinada forma de caminhar, dá o texto lido e encosta no amadorismo. Tudo isso seria compreensível se a peça fosse resultado de um curso de iniciação ou mesmo formação teatral, no qual a carga horária pode ser pequena e a exigência ínfima. Entretanto, a peça em questão é resultado universitário, mais especificamente da UFRGS. E aqui a tenra idade ou a inexperiência não cabem como justificativa para modelos de interpretações tão fracos. A cena inicial adianta o relacionamento conflituoso entre Freddy (Rodrigo Santana) e sua mãe (Ketti Cardoso), porém demora a alçar vôo e não diz muito, podendo ser perfeitamente cortada, como é o caso de outras cenas que poderiam ter sido enxugadas para que a essência tivesse atenção e cuidado especial. Ketti Cardoso mal aparece como madame, mas em cena, não poderia ter sido mais artificial. Melhora ao interpretar a governanta de Higgins, ainda que peque ao apresentar sempre o mesmo tom de voz e andar de forma rígida.




Ao sermos transportados para uma praça, os protagonistas são apresentados: a vulgar florista (Fernanda Majorczyk) de contagiante energia, Eliza Garapa; o arrogante professor de fonética, porém excelente profissional Henry Higgins (Douglas Carvalho) e seu estimado amigo, o delicado Coronel Pickering, interpretado por Paulo Roberto Farias corretamente, porém sem ousadia. Ao perceberem a personalidade vívida e origem humilde de Eliza, os amigos fazem uma aposta: Higgins terá o prazo de seis meses para fazer com que a florista passe despercebida em um baile de gala, tendo aulas de língua e de boas maneiras. Higgins e Eliza estabelecem a clássica relação de opressor e oprimido, travando uma explosiva batalha entre a autoridade de um e a cultura da outra. Ao saber da novidade, Alfredo Garapa (Patrick Peres), o pai de Eliza, corre até a casa do profissional da fala para uma íntima conversa, e acaba saindo com os bolsos cheios. Para fechar o quadro, foi colocado no testamento de um homem rico, prestes a morrer, que termina por condená-lo a viver para os outros, satisfazendo favores, empréstimos e amizades instantâneas, todos na tentativa de sugar seu dinheiro. O enriquecimento de Alfredo é contado por ele de forma confusa e repentina, não convencendo. E é por isto que, por mais que Cícero tenha se esforçado em seu papel - criando uma forma de falar idêntica a de um caipira, uma postura informal e abusada -, suas falas anestesiam o interesse pela narrativa de Pigmalião, principalmente por não acrescentarem ao conflito central, estando desconectadas.








O diretor escolheu o caminho da regionalização, referindo-se à Ilha das Flores e Usina do Gasômetro, o que funciona como gostoso artifício humorístico, entretanto cai por terra ao sair da boca de figuras absolutamente estrangeiras. No caso, ingleses do início do século 20. Henry Higgins, o personagem de Douglas Carvalho, é o que podemos chamar de burguês seguro de si. Ele atinge o auge da segurança pessoal devido aos longos argumentos e as mil cartas na manga, sempre obtendo a palavra final e exibindo seu conhecimento, principalmente linguístico e geográfico-cultural. Verdade seja dita: Higgins, de acordo com Pigmalião, não passa de um professor de fonética soberbo, pedante, mimado e terrivelmente temperamental. Impossibilitando a plateia de nutrir simpatia pela figura extremamente afetada e caricata construída por Douglas. E o pior, o ator tropeça no texto (naturalmente possui o mais longo) ao falar descontrolado, sem articular. Diferente de Lorde Henry, personagem de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, que possui várias das características de Higgins, porém consegue emanar simpatia e admiração.




Na Grécia antiga, Pigmalião esculpiu uma linda mulher que batizou como Galatea, que mais tarde ganhou vida pelas mãos da deusa Afrodite. A transformação de Eliza em uma mulher da alta sociedade acontece aos trancos e barrancos, pois a garota não tem instrução e recebe as ordens de Higgins como uma criança as receberia. A sequencia que mostra as lições de Eliza é bárbara, Fernanda Majorczyk encarna o espírito do palhaço irreverente, atrapalhado e absolutamente ingênuo. Lembra Chaplin, lembra Chaves. Conquista a plateia através da figura cômica que contrapõe e questiona as regras da supremacia desenfreada de Higgins. Fernanda apresenta – e tem – o corpo excelente para a personagem, caminha com as pernas exageradamente abertas e com os braços esticados envolvendo o balde de flores. Sua voz não fica atrás, sem nunca tropeçar na forma errada e hilária de falar por ela construída. Destaque especial para a cena em que o professor a entope de algodões e pede para que repita um trava língua, o resultado é desastroso, mas a cena esplêndida. Eliza aprende a falar corretamente e a portar-se de forma elegante, anda com leveza e veste-se como princesa, é como se Fernanda tivesse mudado de papel, dada a eficácia da transformação no roteiro e no trabalho da atriz. Quanto à cena do baile, acredito que foi perdida, pois em nenhum momento senti que as figuras em roupa de gala estivessem realmente dentro de um grande salão, entre danças, risos e burburinho. O elemento mais agravante foi a atuação de Nani Goulart como a embaixatriz sueca, que abusou do estereótipo ao forçar o sotaque e levantar o nariz como símbolo de vaidade, dando contornos medíocres para sua personagem.




Eliza engana o baile inteiro, ganhando a aposta. Entretanto, escuta as vanglórias de Higgins com a cara fechada, até que resolve expressar o que sentia. Não compreende o motivo de ter sido obrigada a passar por toda essa transformação, está indignada por ter feito parte de um experimento caprichoso. Naturalmente o homem surta, reunindo toda a força de sua voz para retrucar. O mais estranho desta cena é que a própria Eliza Garapa (no início) foi deliberadamente até a casa do professor (com dinheiro) no ensejo de aprender liNções, como ela dizia. Novamente, temos a crença testada devido à problemas da narrativa. Cansada da situação, a dama encontra abrigo na casa da Sra. Higgins (Michele Csordas), que a ensina a pintar magicamente de um dia para o outro. Michele foi a escolha perfeita para o papel de mãe do protagonista, com a única ressalva de que poderia diminuir suas feições por vezes exaltadas e acentuar sua autoridade ao gritar para o filho “comportamento, Henry!”. Higgins, ao acordar, fica desesperado, admite ter caído em paixão por Eliza e inclusive depender de seus encantos, mas agora é tarde demais. Neste último ato os atores – supostamente aquecidos e com as personagens à flor da pele – entregam um físico cansado com o personagem praticamente apagado, tal chama resistindo ao vendaval impiedoso.






Ficha Técnica

Texto: Bernard Shaw
Direção: Leandro Ribeiro
Elenco:
Fernanda Majorczyk - Eliza Garapa
Douglas Carvalho - Henrique Higgins
Paulo Roberto Farias - Coronel Pickering
Patrick Peres - Alfredo Garapa
Michele Csordas - Senhora Higgins
Ketti Cardozo - Dona Cândida/Senhora Eynsford-Hill
Taylor Mendonça - Engraxate/Padre Avelino/Nepomuck
Nani Goulart - Embaixatriz Sueca
Rodrigo Santanna - Fred Eynsford-Hill
Trilha Sonora Original: Julian Eilert e Caoan Goulart
Orientação: Lígia Motta
Realização: Cia. de Teatro Gato&Sapato

25/02/2011

Como Diria...





Num primeiro relance, lia-se O Bordel das Irmãs Metralha em negrito, cravado na placa circular com as letras rodeadas por lâmpadas incandescentes, lembrando os antigos camarins de estrelas. Todavia, as lâmpadas estavam apagadas, e não por acaso, pois uma figura cintilante e over – vestida com um roupão de onça pintada e o pescoço coberto por penugens laranjas - cruzava o palco remoendo suas mágoas: informava ao público que o bordel estava falido, ninguém mais o frequentava.



Mamãezinha Querida (João Carlos Castanha) é a soberba proprietária transexual do estabelecimento, cujos móveis ainda guardavam o glamour dos anos dourados. Inclusive, o cenário é reflexo das personalidades escancaradas que pisam o palco do Teatro Renascença, revelando um abuso de cores e objetos luxuosos muito bem-vindos da cenografia e da direção. Castanha leva apenas pouco mais de alguns minutos para conquistar boa parte da plateia com sua interpretação extremamente carismática. A tarefa que julgo ser a mais difícil é alcançar a construção de uma personagem crível, dado seu temperamento singular: arrogante e opressora até o último fio de cabelo tingido, do brilho labial ou da jóia espalhafatosa. Seja como for, Castanha consegue! Desvia sua personagem da tendência mais comum: tornar-se uma drag queen antipática. E o que me dá a certeza de que Mamãezinha pescou boa parte da plateia foram as fortes gargalhadas provocadas pela enxurrada de piadas e referências populares cômicas; todas seguidas pelo implacável bordão: "Como diria..."








Após alguns trovões avisarem que o tempo estava violento lá fora, irrompe o som de um trovão mais forte, interrompendo a tentativa de suicídio da dona do bordel e promovendo a deixa necessária para que a primeira futura irmã metralha fosse conhecida: Carmen, a bailarina! Com o pouco tempo que tem antes do próximo trovão, Mamãezinha é habilíssima em ofender Carmen, caçoando de suas bochechas salientes. Só não continua seu discurso opressor por causa da segunda aparição: Beatriz, a atriz! Enquanto a elegante, alta e magra recém-chegada de sobretudo cinza (no melhor estilo Casablanca) conversa com Mamãezinha, surge uma terceira figura: Ingride, a turista! De mapa nas mãos e envolta por uma capa de chuva amarela, a obesa pergunta: Is this Mexico? Para completar o quadro de espanto chega a quarta e última futura irmã metralha: Selma, a caipira! Mulher feia com os traços cansados, os dentes podres e a roupa rasgada. Antes que a velha proprietária fizesse alguma coisa a respeito, as meninas já estavam instaladas e prontas para arrasar.




Cada uma tem sua vez, seu momento de estrela debaixo do holofote. E o mais ridículo – que muito vem a somar pontos positivos – é o fato de elas serem retratadas sem idealizações. São destrambelhadas, erram a coreografia, a letra da música, desafinam e terminam esbaforidas; entretanto, nunca perdem a pose. Esta deve estar sempre intacta, deve ser uma fortaleza resistente à luxúria das emoções. A bailarina de roupas flexíveis que dança e canta ao som da muito adequada Let Me Dance For You é interpretada por Glória Crystal, cujo desempenho causa euforia na plateia, principalmente quando revela (em voz metálica) ser metade mulher, metade máquina. Toda essa energia manifestada pelos expectadores é canalizada internamente ao ouvirmos a emocionante canção de Beatriz, que ao tirar o sobretudo dos anos ’40 revela suas curvas através do vestido negro cheio de brilhantes. Aqui a dublagem funciona perfeitamente, ninguém diz que o ator Everton Barreto está dublando. A prova máxima de seu talento se dá quando a personagem compartilha sua história no microfone: é uma atriz decadente que teve o bico do seio decepado por Mr. Knife, um atirador de facas. Mais tarde descobriremos que Carmen e Beatriz, em sua época de circo, foram apaixonadas pelo mesmo cafajeste, o atirador de facas. Esse detalhe serve apenas de mais um motivo para a acirrada disputa das irmãs metralha, sempre querendo passar uma por cima da outra.








Chega então a vez de Ingride, que chacoalha a energia do público compenetrado. Dona de forte sotaque, a transexual de pele negra afirma ser alemã. É difícil contrariar o baixo alcance da voz de Dandara Rangel, porém sua interpretação é espetacular, brilhando mais que o próprio figurino! Ao ser insultada de litrão de Frukito, obviamente por Mamãezinha, Ingride resolve despir sua capa de chuva ao som de New York, New York: usa um vestido apertado com as cores da bandeira dos Estados Unidos e uma porção de acessórios com a mesma temática nacionalista. A norte-americana é infalível ao interagir com o público, que não consegue ficar sério diante de uma figura daquele tamanho cantando hilariamente com a língua trepidante e pulando tal qual uma baleia.




Na hora de Selma, ela está acanhada, mas não perde a vez de soltar a voz com honestidade e orgulho pelo seu povo nordestino. Ela é tachada de mulher do saco e partidária do MST, porém acaba dando inesperada prova do seu potencial ao cantar fervorosamente em defesa da separação do Nordeste autossuficiente de um Brasil explorador em Nordeste Independente, com a voz de Elba Ramalho, que se mostrou perfeita para a personagem Selma. Mamãezinha Querida começa a respeitá-la somente quando a jogam dentro de um vestido armado, pintam exageradamente seu rosto e alisam seu cabelo, agora ruivo; ela passa por uma transformação radical. Lauro Ramalho constrói uma personagem persuasiva em sua ingenuidade, sendo ironicamente a única nascida mulher. O grande feito do roteiro sagaz de João Carlos Castanha e Zé Adão Barbosa, que indubitavelmente ganhou carga inspirativa em Pedro Almodóvar, é a chance de mergulhamos nestas histórias absurdas e extremamente criativas que nos tocam, fazem rir, pensar e enternecem. Isso, devido ao caráter humano das personagens, que ultrapassa as diferenças culturais, sociais e inclusive pessoais. Quanto à direção de Zé Adão, não visualizei nenhum ponto negativo, nada que pudesse alertar. A montagem possui ritmo, o palco está equilibrado e bem explorado.




Mamãezinha Querida revela mais uma vez não ter papas na língua ao chamar a atenção de Beatriz “Sem Bico Teta de Ovo Frito” para seu gogó e citar uma frase de Luchino Visconti: “- Uma águia voa sozinha, os urubus voam em bando”. Ao que elas respondem: “- Se queres ser uma águia, não ande entre as galinhas!” No último ato, uma vez que as meninas foram aceitas para trabalhar no bordel, Mamãezinha aparece com uma roupa dourada pomposa e o cabelo da presidenta Dilma; fica ótima na posição de Monsieur Loyal, o dono do circo. Canta Viver do Amor em uma cena engraçadíssima, na qual o microfone oscila pra cima e pra baixo e ela repete! As irmãs metralha invadem a plateia, decididas a reabrir as portas do decadente bordel com muito brilho, rímel e classe!





Ficha Técnica

Roteiro - João Carlos castanha e Zé Adão Barbosa
Elenco - Dandara Rangel, Everton Barreto, Glória Crystal, João Carlos Castanha e Lauro Ramalho
Cenografia - Luiz Sentinger
Figurinos - Naray Pereira
Iluminação - Carlos Azevedo
Direção - Zé Adão Barbosa
Realização - CIA. RIDÍCULO DE TEATRO
Duração: 1h10min

16/02/2011

Estourando Balões Amarelos com a Brasa do Cigarro




A cenografia de Desvario chegou a meus olhos no formato de uma explosão estrelar azul. A atmosfera frígida-metálica da iluminação e dos figurinos lembra a rigidez estética de Quartett, sofisticado espetáculo de Bob Wilson. Mas, calma, essa é apenas a casca da montagem teatral da excelente diretora Tainah Dadda. Se a estética pode ser comparada a uma obra um tanto quanto fria, densa, moderna; o texto dramático está muito mais para o inverso, para a empolgante valsa de Johan Strauss Danúbio Azul. A comédia anti-”para toda a família” de Tainah é calorosa, tendo explícita inspiração do cineasta Woody Allen, com suas críticas muito pertinentes, ainda que em formato sutil.


Um homem de camiseta e paletó (Leandro Lefa), atormentado por não saber ao certo se está de chegada ou de partida, carrega uma mala vermelha pelo palco. Sua esposa (Patrícia Soso) não é quem vai dar respostas certeiras ou mesmo satisfatórias, aliás, Desvario responde pouca coisa, é muito mais ágil em estimular a pergunta. Já a resposta, esta, fica com o espect-ator. A mulher comprova estar no mesmo estado de incerteza e insegurança que o marido ao não reconhecer o próprio - suposto - amante (Lucas Sampaio), que vem retomar seu lugar como chefe da casa aos berros, chamando a mulher de gatinha. E ela, ainda que estranhando a situação em que está metida, mia como um felino em resposta. Os conflitos são então convidados a entrar e tomar conta de nossas personagens, que arregalam os olhos do público ao duvidarem da própria existência, dando margem à ideia de que são efetivamente personagens manipulados por um roteiro terminado, redondinho.


As discussões verbais entre os três – quem me dera poder dizer triângulo amoroso – são ácidas, implacáveis, homéricas; remetendo a casais tempestuosos como George e Martha na maravilhosa peça de Edward Albee Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? ou à Bill Harford e Alice em De Olhos Bem Fechados ou ainda à Frank e April em Foi Apenas Um Sonho. Mas, de novo, o casal inclina-se muito mais para a comédia, como Annie Hall e Alvy Singer em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen. Desvario é digno de aplauso e reconhecimento ao buscar inspiração no texto do dramaturgo chileno Jorge Díaz, recheado de falas histéricas e irrefreáveis, sendo que a peça nunca deixa de lado a veia artística, a originalidade e o conteúdo. Fiquei muito satisfeito ao ver a escolha inovadora da diretora ao dirigir uma cena de briga entre o casal, separando os atores em dois planos distintos, ficando a mulher em primeiro plano: todos os argumentos enfurecidos seguem beliscões, puxadas de cabelo, estrangulamentos, bofetadas e outros; o detalhe é que nem Patrícia nem Leandro chegam a se encostar um dedo, porém as agressões são muito visíveis e hilárias. Vislumbrei a união da técnica com a emoção, da concentração com a descontração, ou se preferirem, do cisne branco com o cisne negro.







Desvario já começou eletrocutando-me. Entrei no teatro refrigerado com a camiseta tomada por pingos de suor, me senti um ator com vasta movimentação num dia quente, passados 60 minutos de encenação. Porém, claro, sem todo o cansaço e a liberação de energia – e quem sabe endorfina. É justamente essa a sensação que Tainah Dadda causa: choque. Choque térmico, emocional, mental. O enredo não é difícil ou emaranhado, não precisa ser, é justamente o contrário de uma trama noir, repleta de intrigas. É simples, inteligível, cotidiano. E, paradoxalmente, complexo, profundo, hermético. De outra forma, saberíamos exatamente o que a autora queria dizer com seus patinhos de borracha amarelos! Sim, porque eles apareciam a todo o momento, participando até mesmo da foto de encerramento à lá bonecas russas.


A peça blefa com a platéia, brinca de gato e rato, mostra uma pedra chamando de algodão, e a gente acredita! Aí que está o encanto: na ausência de certezas. Ninguém sabe quem é, da onde veio e para onde vai. Ainda se a frustração acabasse aí, porém é só o começo. A crista da onda repousa no fato de o dia ter começado da maneira mais trivial possível, com pouquíssimas perguntas e um banquete morto de respostas: ir ao banco, lavar o cesto de roupas sujas, fazer as compras.


O cenário do espetáculo é carregado de simbologia: um aeroporto apinhado que, quando analisado, é também o recinto comprido e apertado de um avião. Ou mesmo um apartamento, porque o elenco se mostra aconchegado; entretanto basta o termômetro emocional subir, que em seguida caem do teto sacos de ar salva vida, o que imediatamente nos transporta à imagem do avião. Tudo isso vem muito bem a calhar se considerarmos a inspiração no texto de Jorge Díaz: versa sobre este sentimento de força imensurável, a solidão. O que nos dá a “certeza” deste cenário incomum é o familiar sinal de aviso que antecede uma voz feminina pausada e sempre em estado de graça, alertando atrasos e saídas de vôo. Não fosse pouco, uma aeromoça ruiva com gestos robóticos (Joana Vieira) serve de excelente contra-regra, interagindo com seus olhos esbugalhados. A atriz consolida seu talento ao fumar como uma diva, enquanto segura uma haste cheia de balões amarelos. Vai furando um por um a fim de sonorizar as discussões entre as personagens. Belíssima cena!





No último ato as personagens estão entrando em crise, é a ressaca de – subitamente - acordar sem a própria identidade. A suposta solução está na caixa vermelha aberta pela comissária de bordo: uma estranha figura feminina (Elisa Volpato) de vestimentas lustrosas, gargantilha vermelha e comportamento afetado. Cruza o palco com o microfone apertado nas mãos, dando show; diz ser uma cantora lírica (careca) que mais tarde revela-se transexual. E depois desmente. Se o triângulo teve a mais modesta das esperanças de enfim reconstruir suas identidades misteriosamente perdidas, enganaram-se. A cantora, ao invés de desamarrar os nós, aperta-os! Tendo isso em mente, a única liberação de tensão para o público é a gargalhada. E como ela aparece!






O elenco preparou atuações afiadas, convincentes, prontos para navalhar possíveis faltas de engajamento corporal e vocal. Leandro Lefa tem o físico e o rosto perfeitos para o papel de homem sensível e inteligente, recordando o ator Ethan Hawke em Antes do Pôr do Sol. Meu único conselho é trabalhar mais encima da voz, que às vezes fica baixa ou mesmo irritante. Não cheguei a assistir às temporadas em que Ursula Collischonn fazia o papel de Patrícia Soso, mas sou obrigado a elogiar a substituição, que se não tivesse tomado conhecimento, diria que não existiu, pois a atriz está exemplar dentro do vestido azul datado e ao mesmo tempo atemporal, fazendo contraste com o colar escarlate. Destaque para a cena em que ela erra propositalmente o texto, de forma absolutamente orgânica; Patrícia anda escolhendo bem as peças em que atua. Lucas Sampaio aparece fazendo apoios; usa uma camiseta apertada para ressaltar o físico, calças coladas e botinas. É o Johnny Bravo do Cartoon Network escrito, só falta o cabelo loiro e o topete. Mas isso é composição externa, o trabalho de ator de Lucas é extremamente bem feito, o peito inchado da personagem não lembra em nada um estereótipo, sendo inclusive aproveitado.


Não me restam dúvidas de que a montagem aqui analisada vem muitíssimo bem a calhar nestes tempos de frivolidade teatral.


Alienação, alucinação, delírio, demência, desatino, desvairo, insânia, loucura e tresvario.




Ficha Técnica
Elenco: Elisa Volpatto, Leandro Lefa, Lucas Sampaio, Patrícia Soso e Joana Vieira.
Preparação corporal: Moira Stein
Cenografia: Marcos Buffon
Iluminação: Nara Maia
Figurinos: Maiguida
Trilha Sonora: Arthur Barbosa
Programação visual: Ingo Wilges e Lucas Sampaio
Produção executiva: Lucas Sampaio e Luísa Barros
Direção de produção: Lucas Sampaio e Luísa Barros