12/10/2015

Guiomar, A Filha Da Mãe (PE)




Augusta Ferraz, um dos grandes nomes do teatro pernambucano, interpreta Guiomar, uma louca professora de história. Com o texto de Lourdes Ramalho, escrito especialmente para a Augusta, a atriz representa ao público a sua versão de como foi construída a história do Brasil. Inicialmente, o espectador é colocado à escuta dos causos que estão sendo contados. É perceptível o grande trabalho vocal da atriz. Augusta Ferraz apresenta exemplar domínio de sua voz quanto ao sotaque utilizado pela personagem, predominando o português de Portugal, fazendo com que o espectador preste maior atenção ao texto dito para melhor compreensão deste. Principalmente onde há canções em que, ao mesmo tempo em que são executadas com tamanha excelência, levam-nos ao sertão nordestino.


Por diversas vezes eu sentia o calor da região, a seca, a miséria, as dores da personagem. Tudo isso a partir da voz de Guiomar e, também, da iluminação. Cores quentes. Alaranjadas. Avermelhadas. Sensações que eram transmitidas aos olhos do espectador. A transmissão de sensações aumentava gradualmente durante o espetáculo. Houve o momento em que as luzes da plateia foram todas acesas para, então, Guiomar entrar em contato direto com o público.


"O senhor aí tem um trocadinho?"
"A senhora tem uma bala? Prova primeiro para eu ter certeza que não é veneno."
O público tornava-se protagonista nessa cena de interação.
O público tornava-se protagonista nessa representação da realidade.
Por quantos moradores de rua passamos durante o dia?
Quantos deles nos pedem algo?
A quantos deles atendemos aos seus pedidos?
Você já conversou com algum deles?
Você já olhou nos olhos de algum deles?



Olhos que gritam. Gritam verdades que não estamos acostumados a vivenciar. Acreditar. Enxergar.


Enxergamos não só uma peça de teatro. Mas uma representação forte da realidade. Aquela que não faz parte da maioria das realidades ali presentes.


Quantas Guiomar existem por aí?
Quantas?!
Quantas...


Por Manu Goulart



Ficha Técnica

Direção: Moncho Rodrigues e Augusta Ferraz
Autor: Lourdes Ramalho
Dramaturgia cênica: Moncho Rodrigues
Atuação, desenho de luz, adereços, pesquisa musical e administração: Augusta Ferraz
Figurino: Marcos Pinto
Assistência de produção e palco, fotografia, filmagens: Alcides Ferraz
Montagem e execução de iluminação: João Guilherme de Paula
Realização: Grupo Pharkas Serthanejaz, Augusta Ferraz
Duração: 70min


Meredith Monk & Vocal Ensemble: The Soul’s Messenger (EUA)




Ah – Mmm – Ah – Mmm – Ah – Mmm
Hey – Hey – Hey – iiiiiii
Ah! – Ahhhh – LaLaLaLaaaaa – LoLoLo – Si Na Maaaa    
Trees - Trees - Oh trees - Trees - Birds - Coffe - Coffe - Coffe - Do you remember? - Do you remember? - Do you remember?

           
Pra mim não existe descrição melhor do espetáculo musical de Meredith Monk do que essa: um anjo no palco e seus companheiros alados. Olha, pode parecer bobagem ou até mesmo incabível essa comparação. Mas não é. Se você esteve lá você sabe. Dividir o mesmo tempo e espaço com a voz de Monk e sua companhia é se permitir ouvir a ousadia solar e lunar da criação. A sensação de que presenciamos um momento raro ficou marcada em mim. Por isso eu digo que somente um ser estelar poderia construir paisagens, sentimentos, pensamentos, sensações e vibrações com a própria voz. É como se tudo o que a voz de Monk tocasse sofresse uma alteração química e física em sua constituição original.


Era interessante sentir a plateia em estado de contemplação, leveza, serenidade, encantamento. O tempo parou e cada um mergulhou na sua infância, nos momentos marcantes de amor e horror, nos traumas e nos exemplos positivos. Viagem é a palavra perfeita para descrever a experiência “Monk”. E você pode ter certeza que ninguém trilha o mesmo caminho nessa viagem.


Preciso admitir que eu gostaria de ter permanecido nesse estado profundo de interiorização, de mergulho interno e encontro consigo. Mas teve uma hora que eu me senti incomodado e cheguei até a sentir um desconforto, pois parecia que o tempo estava demorando para passar. A bolha “Monk” rompeu e eu me vi escutando a respiração profunda da espectadora do meu lado que parecia estar em um sono profundo.




De repente a “grande sacada” do espetáculo, sua essência, a linguagem própria, inventada, os ruídos para entrar em transe e o chamado dos anjos pareceu perder completamente o sentido e eu caí da minha nuvem de encantamento. Pensei que muitos devem sentir isso em determinado momento. Pensei em quantas pessoas sentiriam isso durante todo o espetáculo e naquelas que nem por um segundo sentiram isso. Pensei: essa obra de arte é universal, é para todos. Mas ao mesmo tempo não, é para poucos. É para os que têm gosto refinado e muito conhecimento teórico. Capacidade de abstração. Será?


Como eu gostaria de parar de pensar e apenas curtir. Sentir. É isso! Talvez esse seja o segredo da experiência “Monk”. A ênfase está no sentir. A partir do momento em que a mente interrompe a leitura intimista do ser que sente, a mágica desaparece. O “sentido” desaparece. Estou certo de uma coisa: a mensagem da alma está muito além dos domínios mentais. É o eterno mistério que pulsa e vibra em cada um, que está registrado encima e embaixo, à esquerda e à direita de cada um, mas ainda assim podemos ignorá-lo. Monk é uma experiência única de abertura de um olho interno, a grande porta da percepção.


Por Guilherme Nervo





Ficha Técnica

Composição, voz e teclado: Meredith Monk
Músicos: Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz e teclado) e Bohdan Hilash (instrumentos de sopro de madeira)
Iluminação: Noele Stollmack
Design de som: Lucas Indelicato
Produção: Peter Sciscioli

Duração: 90min

11/10/2015

Como A Lua (PE)




Tudo o que nasce morre
Tudo o que morre volta a nascer
Como a lua
Como a lua


Não foi só a música que continuou em minha mente após ter assistido ao espetáculo do Grupo Mambembe nesta tarde de sábado, mas todos os lugares por onde fui levada enquanto o assistia.


A peça de José Manoel Sobrinho conta não só a história de amor do índio Paya pela belíssima índia Cólon, mas a história da existência. O nascer, morrer, permanecer, renascer, conhecer. As nossas descobertas.


Para isso, somos levados, primeiramente, à realidade de Paya e Cólon. A música é o nosso meio de locomoção. Com a fantástica direção de Samuel Lira, e também com sua cativante presença cênica; todo o elenco transforma o palco do SESC em um cenário mitológico. Estamos aonde acreditamos que estamos? Basta fechar os olhos para logo se sentir junto ao simpático casal. Ouço o barulho de um riacho - ou seria uma cachoeira? Olha! O canto dos passarinhos! E todos os demais animais presentes nessa floresta.




Presença. Atores extremamente presentes. Mesmo enquanto estão concentrados na musicalidade, ou na atuação cênica. E o que dizer quando há um público participativo? Vemos a comunicação entre espectador e ator. A peça torna-se um canal entre aquele que assiste e aquele que apresenta. Olho ao redor. Crianças, adultos, todos estão conectados.


A conexão também é satisfatória entre a história de Paya e Cólon com a dos colegas de classe da vida urbana. A descoberta do amor, a ingenuidade, os questionamentos, apesar de possuírem aspectos característicos do local onde se encontram - "selfie", "cabra-cega" - a essência é a mesma. Independente do local onde algo ocorre, há uma essência que une. Enquanto Paya dá cambalhotas e se exibe para a indiazinha Cólon, os amigos descobrem a magia do primeiro beijo.


E magicamente, as histórias se unem. Algo faz com que a realidade de Paya se junte ao dos coleguinhas. Mas como? Como? Eles vivem em mundos tão distantes. Culturas distintas. Como?! Apesar de o modo de vida ser diferente, o essencial da vida é semelhante. Todos brincam, têm suas dúvidas e possíveis respostas. Todos sentem. Amam. Eis o essencial.

E essa essência foi o que me prendeu durante todo o espetáculo.


Por Manu Goulart



Ficha Técnica

Direção: José Manoel Sobrinho
Autor: Vladimir Capella
Elenco: Luiz Veloso, Kamila Souza, Geysa Barlavento, Marinho Falcão, Pascoal Filizola, Samuel Lira, Sandra Rino e Tiago Gondim
Trilha sonora: João Falcão, André Filho e Alan Sales
Desenho de Luz: Luciana Raposo
Operação de luz: Rodrigo Oliveira
Cenografia e figurinos: Cláudio Lira
Direção musical, arranjos e preparação vocal: Samuel Lira
Fotografia: Laryssa Moura

Produtor executivo: Elias Vilar

Bukowski – Histórias da Vida Subterrânea (RS)




É a verdade o que espanta em Bukowski – Histórias da Vida Subterrânea. O homem existiu. Sua história existiu. Suas palavras existiram. Ao assistir a peça não soube diferenciar o que mais chamou minha atenção: o homem e sua forma de ver o mundo ou a excelente montagem do grupo Depósito de Teatro. Sem dúvida, os dois. Fui profundamente tocado por essa montagem, não sabia o que esperar, pensei, inclusive, que eu não ia gostar. Muito pelo contrário, me diverti, me emocionei, ri, aprendi.


A cena em que os pais de Bukowski aparecem me marcou e a partir dali eu tive a certeza de que o espetáculo só iria crescer e foi exatamente assim. Comecei a refletir sobre todos esses meninos, meninas, jovens e até mesmo adultos que não se ajustam ao mundo como ele está, que têm muita dificuldade em representar o teatro que todos nós formamos e conservamos, século após século, com direito a normas de conduta, o que é certo e errado, um sistema econômico brutal no qual ou você se ajusta ou você margeia a sociedade. Está certo que essas pessoas não fazem parte da parcela hegemônica social, mas antes, contra hegemônica. Representam tudo aquilo que está contra o sistema massivo e manipulador que podemos chamar de “Matrix”, fazendo uma referência ao filme. Se essa parcela pode ser comparada a um vírus, a questão é como ser um vírus na célula, ao invés de fora dela. 


Bukowski encontrava no álcool e no tabaco uma forma de sobreviver a um mundo hipócrita: silenciosamente violento e profundamente reprimido. Também gostava de mulheres e é interessante como algumas viam seu trabalho: com desprezo, deboche, dizendo “até mesmo eu consigo escrever isso!” – frase que já ouvi de muitas pessoas e tenho sempre a mesma reação: “- Então por que não é você no lugar dele?!”, sabe? – às vezes desvalorizando momentos alegando que ele só queria matéria prima para seus escritos.




A verdade é que não importa o quanto Bukowski se destrua, não importa o quanto ele fale mal do mundo ou mesmo não veja um futuro digno: não importa. Ele está ali. É um ser como nós e ao mesmo tempo diferente. Incrível. Adoraríamos ter um tio como ele ao mesmo tempo em que detestaríamos. Bukowski não passa despercebido e faz impossível que o ignoremos ou às suas palavras, nem que seja para rotulá-lo de “maldito”.


O cenário é realista e composto por muita sujeira, várias garrafas vazias, carteiras de cigarro amassadas, cigarros abertos espalhando tabaco, mesas, cadeiras e uma parte de uma residência que é o local aonde morava Charles Bukowski, com uma escrivaninha, uma geladeira e outros apetrechos. Tudo isso ajuda na atmosfera criada pela peça, mas eu ouso dizer que o trabalho da companhia Depósito de Teatro é de um nível tão bom, que dispensa todo o cenário, por si só os atores já conquistam o interesse da plateia e a atmosfera de caos, destruição, desordem, e rebeldia contra o sistema capitalista. Entretanto, por incrível que pareça, a característica mais marcante da montagem não é nenhuma destas e sim o toque profundo de humanidade que o poeta tinha em si – essa é a tônica essencial da peça e é o que faz ela ser tão digna de elogio.


Toda a estrutura narrativa da peça, que é não linear, em conjunto com as atuações efervescentes, cheias de entrega, paixão e verdade – especialmente a de Roberto Oliveira e da atriz com a personagem de voz rouca e muito doente, na cama -  intensificam o poder de qualidade e o valor autêntico dessa obra que eu recomendo. O aspecto que eu aprofundaria mais é a infância, adolescência e juventude de Charles Bukowski, especulando com carinho toda a formação desse homem, a origem de suas indignações, frustrações e insatisfações. Assim como a origem de seu espírito revolucionário, sua coragem de falar e viver seus próprios ideais, a força de suas palavras e também a repercussão delas. Muito importante ressaltar a minuciosa pesquisa do grupo, realmente mergulhando no mundo de Bukowski e consolidando uma peça teatral fiel à história e à literatura de um homem que dizia que tudo o que escrevia era autobiográfico.


Por Guilherme Nervo




Ficha técnica

Direção e dramaturgia: Roberto Oliveira
Elenco: Aline Armani, Cris Eifer, Elisa Heidrich,  Marcelo Johann, Pitti Sgarbi e Roberto Oliveira
Trilha sonora: Francine Kliemann, Roberto Oliveira e Kevin Brezolin
Produção executiva: Joice Rossato
Iluminação: Fabiana Santos
Cenografia: Modesto Fortuna
Figurino: Elisa Heidrich
Operação de som e vídeo: Fernanda Fávero
Duração: 80min


10/10/2015

P-U-N-C-H (RS)




Acredito que essa tenha sido a percepção mais difícil de escrever. Há tempos, eu não presenciava algo semelhante. Sabe quando uma pessoa muito sensível vai assistir a uma peça tão forte que lhe toca no que há de mais íntimo e profundo? É necessário um tempo para compreender tudo o que começa a passar por nós. Assim, só agora consigo escrever sobre. 


Eu já sabia do que a peça tratava, e me interesso bastante pela temática escolhida. E colocar isso tudo numa ópera é uma ideia deveras tentadora. Pois é essa junção das artes que dá maior intensidade ao que será apresentado. Dança, música, teatro... Quando é bem feito, toca o público. E foi isso o que aconteceu. Bastou olhar as expressões dos espectadores, seus comentários durante o espetáculo, a forma como eles saíram do teatro, etc. 


Começando pela cena inicial: o som da orquestra junto aos movimentos lentos do bailarino atravessando o palco. Essa mescla entre sonoridade intensa e movimentação lenta se repete pela peça. O resultado em mim foi uma tensão pelo meu corpo. Era como se algo estivesse sendo preparado para ser realizado. Como se cada micromovimento resultasse na força e agilidade representada pelo som dos violinos. Como se cada lento e calmo micromovimento tivesse outra intenção: a da pressa e da voracidade. 


 Movimentos que se repetem. Movimentos que se repelem. Que se aproximam. Que se chocam. Que gritam. Que sussurram verdades em nossos ouvidos cardíacos, emotivos. 




 Por uma noite. Por apenas 1h40min de uma noite, eu pude ter uma clara ideia do que cada uma daquelas pessoas sentiu. A dor, as dúvidas, o medo, as incertezas. Cada momento me surpreendia. Independente de eu ter conhecimento ou não do que ocorreria - afinal, muitos amigos que assistiram, comentavam bastante e demonstravam o quanto o espetáculo os afetou. Conhecendo ou não, os momentos me impressionavam. Era mais tocante o "Como aconteceria" ao invés de "O quê aconteceria". 


Um dos momentos era a cena em que uma das bailarinas tinha o cabelo raspado em cena. Eu só percebi que aquilo aconteceria quando enxerguei a máquina no bolso do ator que a carregava. O instante, por mais rápido que tenha acontecido, tornou-se uma tortura. Pessoas ao meu redor murmuravam: "Ai não", "Não, não, não...!". E eu refletia se a dor maior era do público ou das pessoas que passaram por isso naquele período. Qual é a distinção entre essas dores? Essa cena foi tão chocante que eu não percebi que os demais atores tinham trocado de figurino em cena. Só entendi quando os vi com outra roupa. Os meus olhos só acompanhavam o movimento preciso da máquina pelos cabelos da atriz e o olhar expressivo dela, como se estivesse encarando algo. A si mesma. A situação. Ou cada um de nós presente naquela plateia. 


Apesar de ter momentos que nos perturbem emocionalmente, o espetáculo apresenta outros que podem demonstrar graça ao público. Um deles é a cena dos dois generais na mesa de jantar. A tensão inicial logo se mostra com um belo toque de sarcasmo e ironia em relação ao íntimo daqueles dois homens de poder. Até onde vai toda a brutalidade que demonstram? O que há no mais profundo daqueles seres? 


O que há de mais profundo em nós? Somos espectadores passivos àquilo que está sendo apresentado em cena? Acredito que, pelos olhares e feição de cada um presente, P-U-N-C-H foi um belo de um "soco" em nossa consciência. Em nossos sentimentos. 


Por Manu Goulart




Ficha Técnica

Direção Geral, Direção Musical e Concepção: Christian Benvenuti
Direção Coreográfica: Silvia Wolff
Direção Cênica: Alexandre Vargas
Criação de Luz: Maurício Aguiar de Moura
Cenografia: Elcio Rossini
Criação dos Figurinos: Carolina Di Laccio
Direção de Vídeo: Eny Schuch
Produção: Débora Plocharski Borges/Tribolê Produtora
Elenco de Intérpretes/Criadores: Alessandra Souza Alexander Kleine Andrew Tassinari Consuelo Vallandro Cristiane Bocchi Débora Jung Bonzanini Gabriela Guaragna Giuli Lacorte Guilherme Conrad Gustavo Duarte Jaime Ratinecas Jeferson Cabral Julia Bueno Walther Luana Camila Luciano Souza Manuela Miranda Matina Banou Renan Santos Silva Viviane Gawazee
Assistência de Produção: Karenina Benvenuti e Matina Banou
Identidade Visual:Christian Benvenuti

14/09/2014

A memória que não queima



O Theatro São Pedro foi o lugar que materializou a encenação de Incêndios em nossa cidade. O ato de ir experienciar esse trabalho no momento atual em que vivemos torna-se uma metáfora na vida de todos que estiveram lá, pois assistimos aos conflitos do oriente médio, assim como os vemos em forma de noticiário nesta noite. Logo, a encenação ao ser realizada soa como um ato político de radical força humana.



A encenação é dirigida por Aderbal Freire- Filho e conta com um elenco grande, de oito atores, que em sua maioria interpretam mais de um papel, para assim darem conta da dramaturgia e de toda história.



A aridez é um elemento visual que extrapola a magnitude do cenário- estruturas de grades vazadas, enormes, que lembram ao muro da faixa de Gaza- e envolve a interpretação, a luz, o jogo de cena. As vidas secas a partir do nó do destino feito pela guerra é aridez do silêncio da vida da protagonista, e consequentemente de todos que a rodeiam.



A história começa com o depoimento de alguém que não está mais viva materialmente. Esse é o nó inicial desta tragédia contemporânea. Vemos uma jovem perder o amor de sua vida, e ser separada de seu filho no momento do nascimento. Com isso, ela promete a sua avó não ser uma mulher que se deixa levar as forças patriarcais de sua cultura. A jovem sai da cidade e volta sabendo ler e escrever, fato que fará encontrar sua companheira na batalha por achar seu filho. Ao mesmo tempo, vemos a busca anos depois de sua família por entender o silêncio de sua mãe, a mesma jovem da qual falamos. Os filhos gêmeos vão atrás de sua história e acabam descobrindo a verdade sobre o passado da mãe. Eles descobrem que sua mãe era uma guerrilheira, que lutou pelo fim dos conflitos indo matar o seu cerne, o chefe das milícias. Assim, ficou presa e como todas as mulheres da prisão fora violada várias vezes por um mesmo homem. Ao decorrer da trama vemos que seu carrasco era seu filho tirado de seus braços há anos atrás. E a busca de seus filhos por entender o silêncio da mãe termina quando podem entregar as cartas destinadas ao seu irmão, que agora descobrem ser também seu pai.



É difícil explicitar em palavras um enredo tão bem feito, uma trama que nos conecta durante as duas horas de peça de uma forma arrebatadora. Este feito é de Wadji Mouawad, escritor da peça, que propõe uma quebra no espaço e tempo da ação, fazendo com que os tempos distintos da narrativa aconteçam ao mesmo tempo. Todavia, a direção de Freire é primorosa no que diz respeito à concretude da atmosfera do texto. As cenas são dinâmicas e com um nível alto de jogo entre os atores.



Quando refletimos sobre atuação, nos cabe dizer que os atores levam com grande energia à história com momentos de interpretações sinceras e poéticas. No entanto, os atores que interpretavam os filhos (gêmeos) da protagonista poderiam ter uma densidade maior, pois pareciam simplesmente representar a ideia dos personagens, sendo que carregavam importância no desenrolar da história.



Por fim, vemos em Incêndios a força da palavra, das promessas que fazemos e a força do destino fazendo-se presente em um universo já destroçado pelas marcas dos conflitos territoriais. Porém, o ser humano também é um caminho dentro destes conflitos e esta peça reverbera os estilhaços desses acontecimentos no cotidiano das pessoas.

Ficha Técnica: Texto: Wajdi Mouawad
 Tradução: Angela Leite Lopes
 Direção: Aderbal Freire-Filho
 Elenco: Marieta Severo, Felipe de Carolis, Keli Freitas, Marcio Vito, Kelzy Ecard, Fabianna de Mello e Souza Julio Machado e Isaac Bernat Cenografia: Fernando Mello da Costa
 Iluminação: Luiz Paulo Nenen
 Figurinos: Antonio Medeiros
 Trilha Sonora: Tato Taborda

 Direção de Produção: Maria Siman
 Produção Executiva: Luciano Marcelo
 Produtores: Maria Siman, Felipe de Carolis e Marieta Severo
 Produtor associado: Pablo Sanábio
 Idealização do Projeto: Felipe de Carolis Realização: Primeira Página Produções, Emerge e Teatro Poeira

Por Jeferson Cabral

Fluxo de Morte: Aonde o Fogo Toma Conta



Aonde o fogo toma conta não resta vida, mas vestígios de vida. Sobreviventes. Aonde o fogo toma conta há o domínio de uma história: a história da devastação. Aonde o fogo toma conta há mãe e filho derretendo, pendurados na janela de um ônibus em chamas. Aonde o fogo toma conta há sempre o lado sombrio da humanidade. Aonde o fogo toma conta alastra-se a chama da morte, sofrimento e perda. Aonde o fogo toma conta há incêndios. Tratam-se de incêndios de dentro, aqueles que nos sufocam de raiva e ódio; incêndios de fora, aqueles que nos causam transtorno e apreensão; incêndios literais, aqueles que só de lembrar nos causam pânico e desespero. Todos incêndios reais.



Incêndios é a história de uma mulher que queimou por dentro, por fora e por todos os lados. O próprio demônio encarnado em mulher. Sim. Mas esse não é qualquer demônio. Assim como há fogo: ódio, raiva, fúria e vingança. Há também muita água: amor, persistência, cuidado e carinho. Vontade de vencer e cumprir uma velha promessa: jamais afundar na miséria. O que motivou uma mulher a permanecer cinco anos calada? A ser enterrada nua e sem caixão? A não mencionar a palavra “filho” em seu testamento? A proferir a frase: “a infância é uma faca enfiada na garganta”?



Através de um roteiro extremamente fértil, uma trama imprevisível, interessante e que verdadeiramente rouba a atenção do expectador; a peça de teatro Incêndios procura responder essas perguntas e tantas outras desdobrando e revelando o caráter de uma mulher que é uma dinamite. A princípio temos a imagem de uma mãe severa, dura, fria, absolutamente distante. O que se acentua ainda mais quando a personagem entra em cena vestida de preto e dá suas primeiras falas. A atriz hipnotiza a plateia. Qual é o segredo de Marieta Severo? Eu acredito que seja o poder e a intenção de sua voz, que sai como uma rajada de flores secas ou (principalmente) como uma rajada de navalhas. Tudo depende do que a personagem deseja nos passar, do que ela vivencia no decorrer da peça. Lembrando que as “flores”, além de serem momentos raros, são definitivamente secas. Podem ser da cor mais brilhante, encantadoras quando vistas de longe, mas não emitem aroma. Estão mortas.



Morte é com certeza um dos temas principais da peça, assim como o sofrimento, a perda, o choque e a injustiça. Quanto um ser humano pode suportar? Continuamos humanos depois de matar? Sangue deve ser respondido com sangue? Não espere momentos felizes em Incêndios, aqui a realidade misturada com ilusão é muito dura. Se essa era a ideia que o cenógrafo queria passar, ele mereceu o prêmio APTR de 2013 por melhor cenografia. São grades enferrujadas que se revelam portas para a passagem do elenco e dos outros elementos do cenário (cadeiras, mesas, bicicleta, baldes, etc). O solo é amarelado e opaco, tudo tem um aspecto sujo, destruído e especialmente claustrofóbico. Essa última característica é sutil porque no centro não há elementos de cenografia. Mas a sensação de prisão, guerra, exílio e submundo permanece durante toda a peça, propiciando o clima ideal. O que destoa muitas vezes é a repetida trilha sonora: fortes ruídos com um homem cantando aos gritos e de maneira grave, o que lembra o estilo musical heavy metal. A princípio conectamos essa música com um dos filhos da protagonista, Simão, o jovem lutador de boxe amador. Quando vemos a mesma música se repetir em outras cenas, que aparentemente nada têm a ver, surge a pergunta: isso é proposital? Claro, talvez a direção quisesse realmente investir em uma linguagem contemporânea, misturando, cruzando e inter-relacionando tempos e espaços diversos.



Se o roteiro é o primeiro ponto positivo da peça, o segundo é a linguagem épica e contemporânea. Quando a filha Jane está sozinha em seu apartamento escutando as fitas que gravaram os dias silenciosos de sua mãe, em busca de uma resposta no silêncio da mãe, ela própria aparece como andarilha junto de sua parceira de viagem, anos atrás. O que as separa? Anos? Ali só vemos um elemento que distancia: as roupas. Enquanto as mulheres vestem roupas gastas e mais antigas, a garota veste uma roupa moderna e bem alinhada. Mas basta elas darem mais um passo e ambas estarão sob o mesmo holofote, sob a mesma luz, sob o mesmo tempo. Tudo isso confunde o expectador de forma inteligente, obviamente já revisitada por muitas outras peças, mas aqui continua com seu brilho. A filha faz uma pergunta como se avistasse a própria mãe no passado. E a mãe responde de acordo com o contexto do passado. Mas há uma sintonia de tempo, uma sintonia entre mãe e filha muito interessante, é uma cena bastante plástica. Linguagem épica porque as personagens narram a história e há alguns elementos de distanciamento ou estranhamento brechtianos, como por exemplo quando a vizinha entra com a música heavy metal e pede diretamente ao operador de som que baixe a música, ou quando as personagens se referem ao espaço físico do teatro como o que é, um teatro. Triunfo do autor Wajdi Mouawad, a narração da história pelos personagens estimula a nossa imaginação. O que seria impossível sem o talento do elenco, especialmente de Marieta Severo e Kelzy Ecard.



O desempenho do elenco também é outro ponto positivo. Basta afiar a atuação dos dois filhos do tempo presente. Ambos precisam trabalhar mais articulação e intenção vocal. Também recomendaria o cuidado com os gestos cênicos caricatos, especialmente do filho, que revelam uma construção de personagem menos cuidadosa, com menos critérios e mais exageros, lugares comuns, como por exemplo quando ele bate no peito repetidas vezes para dizer à irmã que eles têm apenas um ao outro. Não podemos esperar que atores menos experientes estejam acima ou no mesmo nível de atores mais experientes, mas podemos esperar, sim, empenho, dedicação e desenvoltura. O terceiro filho me causou muito desconforto e repulsa com sua maneira de atuar, com seu inglês misturado com português e com a sua própria postura. No início eu pensei que fosse uma falta de preparo dele, mas depois cheguei à conclusão de que ele fez exatamente o que tinha de fazer, desempenhou seu papel de um ser que, além de possuir doença mental, não sabe como lidar com isso nem se vê com alguma coisa a ser trabalhada. Kelzy Ecard apresenta o mesmo nível de desempenho de Marieta Severo, ambas estão muito potentes em cena. Destaco duas cenas: primeiro a que as duas dialogam sobre como agir perante a situação em que se encontram, enquanto Kelzy está ávida por sangue, Marieta tenta frear sua sede por vingança justificando que mais sangue não vai mudar nada. Claro que ela vê motivos para a vingança da amiga, mas traz uma outra perspectiva pra ela, de revolução e consolo. Pede para que a amiga confie nela, ou seja, que aceite a morte de apenas um homem através de não uma, nem três, mas duas balas gêmeas. A segunda cena se dá no final da peça, quando Marieta está dando uma de suas últimas falas, novamente de vestido preto, no tribunal, quando se dá conta daquilo que a faz ficar em silêncio para o resto de sua vida. Nesse momento ela agarra a cadeira que está na sua frente e a potência de sua voz atinge seu ápice. É uma verdadeira aula de interpretação em formato artístico.



Incêndios é uma peça de conteúdo amplo porque trata de assuntos, personagens e situações genuinamente humanos. Precisamos relembrar que nem sempre a vida será como queremos, mas que a força existe dentro de nós e podemos sempre cumprir nossas velhas promessas de superar a miséria, formar família e descobrir verdades avassaladoras. Se isso nos provocar anos de silêncio, bom, isso é um risco. Mas a força está ali, pronta para ser ativada e reativada quando precisarmos. Basta alcançar!



Ficha Técnica: Texto: Wajdi Mouawad
 Tradução: Angela Leite Lopes
 Direção: Aderbal Freire-Filho
 Elenco: Marieta Severo, Felipe de Carolis, Keli Freitas, Marcio Vito, Kelzy Ecard, Fabianna de Mello e Souza Julio Machado e Isaac Bernat Cenografia: Fernando Mello da Costa
 Iluminação: Luiz Paulo Nenen
 Figurinos: Antonio Medeiros
 Trilha Sonora: Tato Taborda

 Direção de Produção: Maria Siman
 Produção Executiva: Luciano Marcelo
 Produtores: Maria Siman, Felipe de Carolis e Marieta Severo
 Produtor associado: Pablo Sanábio
 Idealização do Projeto: Felipe de Carolis Realização: Primeira Página Produções, Emerge e Teatro Poeira

Por Guilherme Nervo

Eu Morro, Tu Morres, Ele Morre



Acredito que as sessões “especiais” são sempre mais intensas. Há alguma coisa diferente nelas, talvez seja o nível de concentração do espetáculo em tão somente algumas pessoas. Digo isso porque o horário do espetáculo foi modificado para às 16h, entretanto, o artista não hesitou em fazer uma sessão especial no horário oficial, 20h. É preciso destacar essa atitude como um verdadeiro toque de humanidade, principalmente tratando-se de uma peça ou esquete com entrada gratuita.



Adentramos um local escuro, iluminado apenas por algumas velas que revelaram um cenário cheio de elementos capazes de criar a atmosfera perfeita para o monólogo em questão, Retalhos. Não bastasse isso, há também duas vozes que se mesclam em uma dança que celebra a morte. Não importa se uma das vozes é um áudio gravado, ali eu pude testemunhar ator e cantora juntos, complementos de uma única mensagem cheia de nuances, como um ser humano único cheio de eus ou órgãos ou elétrons. Sim, a vida é besta como um grito sufocado de dor. Mas vale a pena. Porque de repente estou lendo um livro debaixo de uma árvore e me dou conta de que a minha vida é mais interessante do que a de Robinson Crusoé.



A pessoa morre depois de tanto verbo. Eu morro. A pessoa morre de fome. Você morre. Depois de tanto verbo a pessoa morre. Ele morre. A pessoa morre. A pessoa morre. É assim que inicia Retalhos, com o desabafo sincero do personagem - ou do próprio ator Sérgio Sal - relacionado com a música de Karina Buhr. Confesso que inicialmente o que mais me chamou atenção foi a atmosfera, o cenário, a música. O ator-personagem, não. Ele estava propositalmente nervoso, fazia parte dessa primeira cena, mas identifiquei uma voz cotidiana e um nervosismo além do personagem. Claro que tudo isso me causou uma primeira impressão negativa. Confesso também que foi definitivamente e somente uma primeira impressão, pois bastou o ator engrenar na miscelânea de verbos que é a primeira fala do monólogo para eu me ajeitar na cadeira e escutar atentamente, completamente seduzido pela forma com que ele brincava com o texto e com o próprio conteúdo do texto, todo costurado.



Nervoso ou não, eu pude presenciar concentração, talento, entrega e paixão em um único homem. Paixão pela vida, pelo sofrimento, pela vontade de continuar apesar de todas as dificuldades. É um homem que está à beira de causar a própria morte, mas o faz de maneira tão intensa, melancólica, reflexiva e até mesmo cômica que chegamos a nos perguntar se realmente é a morte que ele deseja ou uma profunda transformação. Afinal, o que é a morte senão uma grande transformação? Retalhos mexe com os nossos sentidos transformando dor em poesia. O local parece estar se desmanchando, é como se corressem lágrimas das paredes. Há diversas texturas e cores pálidas. Esculturas enigmáticas e lânguidas de ferro, pinturas abstratas, fundo com porta de vidro e chão de cimento cru. Três abacates e um cacto para dar um tom de comicidade e vida.



É preciso de ousadia, coragem e empenho para criar o próprio texto e se dirigir. Esse é o caso de Sérgio Sal, que foi muito feliz em sua aventura de ser ao mesmo tempo autor, diretor e ator de seu trabalho. Mesclando Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e episódios de sua própria vida, eis o roteiro de Retalhos. Quero destacar uma das cenas que me fizeram ir longe, em uma viagem profunda de cinco segundos. Quando o personagem coloca a mão na textura da parede lateral e diz: (...) impregnado de eternidade. Não consegui tirar os olhos daquele movimento com as mãos e da própria parede por pelo menos cinco segundos, transportado que fui para outro lugar, talvez de encontro com as minhas memórias de infância. Esse é exatamente o tipo de reação que somente as obras sensíveis, bem trabalhadas e potentes são capazes de despertar.



Sérgio Sal rompe o espaço de encenação estabelecido desde o início, vai até a plateia, interage, toca, oferece o pequeno copo que eu ingenuamente pensei ser água mas descobri ser álcool ao aceitar e o líquido descer queimando a minha garganta. Retalhos também queima a garganta e com muito estilo, pois faz brotar vida aonde é deserto, em uma dança contínua onde vida e morte se dão as mãos rumo a um final extremamente poético. O ator apaga vela por vela, abre um guarda-chuva preto, abre a porta de vidro e... Por um segundo achei que ele fosse cair, se jogar. Terminar com a própria vida. Ao invés disso ele desaparece na escuridão, descendo uma longa escada. Depois de tanto verbo, a pessoa morre, a pessoa se transforma. Bravo.

Por Guilherme Nervo

Fotos: Francisco Gomes

24/11/2012

Eu Sou x Narcisismo





O Feio alcança um nível de provocação muito significativo, causa a sensação de que está sendo apresentado no meio da plateia e não diante dela, consolidando-se como uma obra capaz de eletrocutar os sentidos. Cada recurso cênico foi bem utilizado e - em conjunto com as atuações e a direção - formou-se um organismo interdependente, no qual cada órgão contribuiu para a construção de uma atmosfera perturbadora de vida e morte.



Lette (Rossendo Rodrigues) é um engenheiro que acaba de fazer uma importante descoberta: um conector de última geração. O que renderá a ele visibilidade através de uma conferência com estadia paga e outros atrativos. A outra importante descoberta é que o seu assistente, Carman (Maurício Casiraghi), foi o escolhido para apresentar o tal conector. A justificativa de seu chefe (Paulo Roberto Farias) está na última – e dolorosa - descoberta: Lette é feio.



De homem normal, com mulher (Danuta Zaghetto) e emprego, Lette passa a ser um homem tremendamente feio. Chocado com a revelação, ele decide submeter-se a uma cirurgia plástica que modificará todo o seu rosto. De homem feio, Lette passa a ser uma obra-prima. Seu encantamento dura até ele começar a perceber que o seu rosto está sendo produzido em série, o que vai levá-lo a trilhar um caminho profundo e inesperado: quem sou eu?



Uma das características mais marcantes do espetáculo e do texto é o impulso desenfreado de seus personagens. Como se não vivessem em uma sociedade regrada, exibem uma liberdade de expressão sem amortecedores ou censores. Eles nos remetem às figuras de animais. A diretora Mirah Laline encontrou uma linguagem de atuação consistente com esse propósito, uma exacerbação corporal e vocal. Algo que chega a se tornar caricatural, como nas figuras da velha rica com uma língua obscena e seu filho homossexual, sempre chupando um pirulito rosa de maneira afetada. O mérito do elenco está em extrair o melhor desses personagens, recheando-os de um humor ácido ao invés de deixá-los cair no humor rasteiro. Outra característica instigante do espetáculo é a maneira como os personagens se mesclam, se confundem, chegando a praticamente se fundirem. De repente eu não sei mais diferenciar o chefe de Lette do seu cirurgião plástico, descubro a utilização de um recurso teatral arriscado: a interpretação de mais de um personagem por ator, levando em conta a contaminação corporal e vocal que o personagem anterior deixa no personagem presente ou futuro. Cria-se um efeito de estranhamento coerente com a proposta do texto e da encenação, que exploram uma hiper-realidade consideravelmente real!



A escolha por figurinos homogêneos e sóbrios, assim como a simplicidade do cenário, enfatizam o trabalho do ator. A ilusão de realidade é criada e rompida - através da atuação - de acordo com a necessidade, dispensando grandes cenários ou figurinos detalhados. Um bom exemplo é o rosto de Lette após a cirurgia: nada de concreto é modificado no rosto do ator, o que não prejudica em absoluto a nossa imaginação. E esse tipo de recurso é o que faz do teatro uma arte sublime, aguça nossa capacidade de acreditar a partir de situações e soluções ambíguas, não óbvias.



A trilha sonora é um auxílio fundamental na criação de uma atmosfera de perturbação. A música principal, Du Hast – Rammstein (http://www.youtube.com/watch?v=7_J6otJW3sw), apresenta uma força absurda, simbolizando a brutalidade humana em busca da perfeição física. É constituída por fortes batidas que suscitam medo e desorientação, provavelmente o estado interior de muitas pessoas quando se veem numa sociedade doentia e esmagadora. A música – e as próprias imagens do espetáculo – revelam o caminho do ser humano em direção à neurose e a como estamos entranhados nesse padrão de pensamento a ponto de não conseguir a liberdade. É o que vemos nas partituras do espetáculo, explorando a fisicalidade do elenco e sua consequente carga de signos.



Marius Von Mayenburg é um dramaturgo alemão nascido em 1972, escreveu Parasitas (Parasiten) em 1999 e O Feio (Der Häßliche) em 2007. Essas peças dialogam entre si ao darem vida a individuos acima de tudo egoístas. Esse ego doente se manifesta sob diversas formas, como culpa, medo, tristeza, indiferença, ressentimento, inveja ou ciúme. Construir uma comédia a partir desses elementos densos é uma habilidade e uma conquista. Rir do que nos tornamos parece funcionar melhor do que chorar. Para quem quiser mais detalhes à respeito de Parasitas, recomendo ler o que escrevi sobre a montagem da companhia Vai! de teatro no seguinte link: http://percebeoteatro.blogspot.com.br/2010/06/minhoca-de-acucar.html.



A cena em que os sósias de Lette capturam outras pessoas para a alteração de seus rostos carrega impacto e funciona bem com o uso das máscaras idênticas, revelando um rosto de beleza padrão, como o Johnny Bravo, mas ao mesmo tempo assustador e grotesco. Eu simplesmente reduziria o tempo dessa cena ou substituiria movimentações repetitivas por movimentações inovadoras, que nos lançassem outras imagens que não a imagem centralizadora de que o ser humano está sendo absorvido e manipulado por sua busca desenfreada pela “felicidade”. Não ficam dúvidas de que tanto as atuações quanto a direção estão afiadas e alcançam o que propõem. A escolha pela atuação caricatural em alguns personagens e os movimentos mecânicos são os únicos elementos que, às vezes, não funcionam. Causam uma quebra prejudicial ao espetáculo, mas o ritmo acelerado e polifônico se mantém.



O Feio surgiu de uma disciplina do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, o Atelier de Composição I, com a orientação da professora e diretora Patrícia Fagundes. A criação de um espetáculo a partir de uma disciplina acadêmica é uma atitude encorajadora e que tem o potencial para catapultar em um resultado satisfatório e consistente. Existe uma cena que é muito poderosa e incrivelmente simples: o elenco fica grudado na parede em determinadas posições enquanto dá o texto, isso causa uma ampliação do que está sendo dito, uma vivacidade, cores e cheiros. Ao mesmo tempo em que nos conduz a um ambiente de personagens/marionetes chapados.



Mais para o final da peça, Lette descobre que o filho homossexual da velha rica com quem estava se relacionando, também fez a cirurgia plástica. Eles impedem que Lette se jogue de um prédio, atormentado que está com sua inesperada situação, de um grande incêndio ele passa a ser uma chama tímida e inofensiva. Não fica explícito o resultado da face do rapaz, mas podemos acreditar em uma situação muito interessante: o rapaz gay alterou seu rosto para o antigo e original rosto de Lette. Ao se deparar com seu eu verdadeiro, essência, Lette se apaixona e os dois começam a se beijar. Essa cena é maravilhosa, porque nos traz a pergunta que é o cerne da peça: desejo ser quem eu sou ou desejo quem eu sou?





Ficha Técnica

Autor: Marius Von Mayenburg Realização: Ato Cia. Cênica Direção: Mirah Laline Orientação: Patricia Fagundes Elenco: Danuta Zaghetto, Marcelo Mertins, Paulo Roberto Farias e Rossendo Rodrigues Concepção e produção de vídeo: João Gabriel de Queiroz e Mauricio Casiraghi Iluminação: Lucca Simas Figurino: Marina Kerber

Por Guilherme Nervo

01/10/2012

Como A Vida Continua?





(E)terno atinge os olhos e o coração porque trata de uma realidade universalmente conhecida: a perda de um membro da família. Quais são os passos para a superação? O que deve ser feito? Como a vida continua? A vida continua?

Certamente a vida não continua como antes, mas a partir do espetáculo recebemos a visão de que a continuidade da vida, como o próprio nome do espetáculo, é eterna. Assim como a lembrança é eterna. Ainda que a morte seja o grande mistério da vida, a sensação de que nossas lembranças são eternas persiste em qualquer ser humano.



Segurando um terno azul marinho, ela diz:

- Isso aqui era do meu pai.

Ela cheira, amacia e abraça o terno, na tentativa de imaginar como era – como é – o seu pai. Ela é uma criança de seis anos, uma mulher de meia idade, uma adolescente carente, uma velha resignada, é uma personagem dramática, uma atriz jovem, é a própria Tefa Polidoro. Todas são mulheres que esperam, porque a possibilidade de que a figura masculina apareça está sempre habitando o imaginário delas.

Consegui visualizar muitas figuras a partir de uma atriz com um vestido velho e manchado, representativo de uma história do passado que continua repercutindo no presente. Assim como posso ver uma criança cuidando a trilha das formigas, também posso imaginar que são abelhas ou que são animais imaginários, criados pela mente inventiva da criança. Não importa definir a que espécie pertence o animal, a que gênero ou outra categoria, o essencial é deixar-se levar pelo oceano de imagens que vão surgindo para o espectador, enquanto presenciamos uma atriz que acolhe o vazio do palco e dos próprios sentimentos, transformando-os em arte. A magia do teatro está em apoderar-se de acontecimentos íntimos que nos causaram sensações profundas e transpô-los para a linguagem cênica. Como uma homenagem. Uma forma de lidar. Um aprendizado. Uma celebração da vida.



Os dedinhos dos meus pés vazios. Não existe nada aqui, só eu, eu e o vazio.



(E)terno não precisa de cenário porque em primeiro lugar quer nos mergulhar no vazio. Somente daí nos possibilita o contato com a terra, com a grama, os balanços, o ar ou um bolo de aniversário. Só fica definido aquilo que quisermos definir porque a peça te dá uma margem de liberdade na qual a viagem de cada um é única. Penso que há dois momentos em que o espetáculo atinge seu auge: quando ela nos apresenta uma gag antiga muito explorada pelos palhaços clássicos ou mímicos, a gag do casaco, na qual existe a vívida impressão de que outra pessoa entrou em cena através de um dos braços da atriz, que é coberto pelo terno e adquire vida própria, relacionando-se com a personagem. O outro momento é quando ela repete uma linda partitura - trata-se de um mergulhar e subir do chão - enquanto diz uma frase. A frase dita num crescendo é contaminada pelo corpo que vibra até alcançar um estado de presença e perturbação que causam elevado efeito estético e emocional.



Foi um vento que passou Que te trouxe e te levou







Uma peça com apenas uma atriz em cena, praticamente sem texto dramático e com uma temática autobiográfica não é um trabalho simples. Tefa Polidoro e sua equipe realizam essa tarefa arriscada com algo a mais: qualidade! A atriz faz a plateia acreditar que o teatro não perdeu sua essência, que ainda podemos ir ao teatro e sair poetizados. O cerne do espetáculo não está nos efeitos de luz, nas projeções audiovisuais ou em maquinarias de última geração, como muito temos visto ultimamente. (E)terno é grandioso porque é um trabalho verdadeiro, de corpo e alma. Não vemos uma atriz fingindo ou se poupando, muito pelo contrário, vemos uma atriz entregue à cena e crente no seu trabalho. Há detalhes da técnica corporal da atriz que contam positivamente ao espetáculo, como seus pontos fixos, sua resistência, o trabalho de mímica e os giros. Uma vez que a técnica, o talento e a entrega se casam, temos a beleza que é (E)terno.

Ficha Técnica

Direção: Márcio Ramos Orientação de Elenco: Luciane Olendzki Atuação: Tefa Polidoro Trilha: Rafael Salib Concepção de Luz: Rafael Schizzi e Lucca Simas Figurino: Letícia Pinheiro Criação Audiovisual: Generall Produções Operador de Luz e Projeção: Lucca Simas Operador de Som: Marcos Chaves Contra - Regragem: Marcelo Pinheiro

Por Guilherme Nervo

11/07/2012

Teatro Canhão

A minha principal percepção depois de assistir às cenas de William Shakespeare - dos alunos da disciplina de Atuação III do Departamento de Arte Dramática da UFRGS -, é a de que um preparo corporal apurado influencia a voz utilizada em cena. Na maioria das cenas existe um reflexo palpável das aulas de corpo com a professora Suzi Weber, das aulas de atuação com o professor Chico – que elaborou acrobacias e técnicas das artes marciais, como o tai chi chuan – e das aulas de voz com Celina Alcântara, muito focadas – da mesma forma – na exaustão do corpo. O resultado, que analisarei aqui, foi impactante e de qualidade. Entramos no Studio I e imediatamente fomos abordados por figuras que sussurravam nomes e feitiços, tentando nos levar para o centro do “palco”. Foi importante ver os personagens unidos em torno desse ritual que parecia invocar outros seres através do estado de transe. Acredito que seria uma boa forma de finalizar as cenas, com uma nova união entre eles, um ritual de despedida. O cenário se alia com o início a partir do momento que nos causa sinestesia: vários fios formam uma grande teia na qual os objetos (como facas e espingardas) estão pendurados. CENA 1 – MACBETH Macbeth – Áquila Mattos Lady Macbeth – Anandrea Altamirano
A cena começa com Macbeth correndo até o outro extremo do “palco” para vomitar sangue no chão, coberto por uma lona amarela. Macbeth não é inocente, ele deseja possuir o trono, entretanto sua mola propulsora é a sede de Lady Macbeth por sangue. Ela afirma que só não comete o homicídio pela condição de mulher, pois o que não lhe falta é determinação e força, exatamente o que sustenta Macbeth, caso contrário ele desabaria, pois sua essência encontra dificuldade em aceitar a ideia de assassinato. Nem a água mais límpida removeria as manchas de sangue de suas mãos. Áquila consegue passar o espírito perturbado de Macbeth através do corpo que treme e contamina profundamente a voz. A sensação é de que o personagem está cercado por forças ocultas que causam medo e desespero. Lady Macbeth representa essas forças, o que Anandrea captou, desenvolvendo um verdadeiro anjo negro. Mais do que no corpo, seu triunfo está na voz, profundamente contagiante, formadora de ondas de ódio e vingança. A inserção de objetos na última hora pelo professor da disciplina, Chico, foi uma escolha muito feliz. Para mim os objetos já estavam ali durante os ensaios, mesmo que imaginários; tal a destreza dos atores e das atrizes. Macbeth tem uma faca, enquanto Lady Macbeth carrega dois vasos de barro com um líquido vermelho que vai se derramando enquanto ela dá o texto. Fiquei com várias fotografias dessa cena registradas na minha mente, pois os movimentos eram muito precisos e altamente estéticos. O corpo inflava até alcançar ou romper o limite, depois murchava rápido ou lentamente e ia para outra posição. Não fosse a espontaneidade e o carisma da dupla, a cena poderia ter desenvolvido um formato coreográfico rígido. O único elemento que, apesar de causar efeito dramático, rompe com a personalidade firme de Lady Macbeth, são as mãos de Anandrea, que tremiam bastante durante os momentos em que ela erguia os vasos de barro. Ainda que as atuações estejam afiadas e niveladas, Anandrea apresenta uma energia de combustão, um radiancy sem fim.

10/03/2012

O Devaneio e a Aplicação



Nenhuma, não tenho autoridade nenhuma. Nunca me aconteceu nada. Nunca aconteceu nada a nenhum dos nossos amigos. Eu nunca sofri. Nem os meus amigos.

Que se foda o melhor, esse sempre foi o meu lema. É o homem que baixa a cabeça e continua a avançar, contra ventos e marés, que consegue sair vitorioso. Um homem com coragem e aplicação.

Um oceano de molho que nos rodeia por todos os lados e nos sufoca em um volumoso oceano de molho. Mas a culpa é toda nossa. Não somos a vítima, somos a causa.


Cinzas Às Cinzas transpira equilíbrio e harmonia nos primeiros minutos. As luminárias estão no mesmo plano e são idênticas, as cadeiras estão igualmente posicionadas, a mesa está coberta por uma toalha vermelha impecável, e no primeiro plano repousam uma mala e uma lixeira. A casa de campo possui uma simetria perfeita que é acentuada com a chegada do “casal maravilhoso”, infiltrado pela música romântica What a Wonderful World. Não havia melhor escolha do que essa canção, com sua melodia que desliza como mel no tronco, a letra idealizada e a voz emocionante de Louis Armstrong.


A partir do segundo em que o homem (Elielto Rocha) e a mulher (Marcia Berselli) começam a desvelar sua relação, a pele de Cinzas às Cinzas começa a desmanchar. Os sorrisos engessados do casal iniciam um processo de derretimento que deixa clara a defasagem entre o real e o ideal. A realidade dá sua primeira dentada na atmosfera harmoniosa do casal quando a mulher resolve falar do amante. Suas ações correm a favor da fala, ela desorganiza a casa, enquanto o homem recoloca tudo no devido lugar. Ainda que ferido, o orgulho do macho resiste. Mesmo quando a fêmea é explícita ao provocá-lo, vangloriando-se com saudade do tempo em que sua vida sexual era bem sucedida e ativa, com direito a uma fantasia erótica que a enlouquecia: beijar os punhos de seu amante e ter o pescoço envolto por suas mãos, como quem está a ponto de ser estrangulada.


A típica cena do chá inglês é subvertida pelo texto de Harold Pinter. Ao invés de compartilhar assuntos com o maior nível de decoro, ou nem tanto, afinal estamos em 1996; a conversa toma um caráter ácido. Aqui o chá tem efeito inverso: inquieta os ânimos. Devlin (o homem) quer uma descrição física do amante, quer concretude. Rebecca (a mulher) não admite ser chamada de querida, ela não é a querida de Devlin. Somente o amante a chamava de querida. A atriz joga as xícaras na lixeira sem piedade e com precisão, como se aquela ação fosse uma extensão de sua fala.


O amante era um guia turístico ou um grande timoneiro de navio em águas agitadas, era muito respeitado. Ele ia até a plataforma da estação de trem e arrancava os bebês das mães, que gritavam em desespero. Rebecca admite ficar incrivelmente perturbada com o barulho da sirene de polícia, porque no momento em que se afasta dela, se aproxima de qualquer outro. Revela seu lado patológico ao querer inteiramente para ela o barulho da sirene de polícia, tem um gosto pela aflição.


Devlin começa a fazer muitas perguntas, a dar margem ao seu incômodo. Diz que ela se sentiria muito melhor tendo confessado a infidelidade antes, como se ele fosse um padre, alguém posto à prova. O homem ideal é aquele que sai vitorioso. Aquele que não se importuna com realidades frívolas, com vadiagem, ou seja, com assuntos do coração. É o homem que baixa a cabeça e segue que sai vitorioso. Esse é o discurso de Devlin, um discurso machista, reacionário e que glorifica a alienação, a indiferença. Sem falar da hipocrisia, afinal ele está muito bem envolvido em assuntos do coração nessa peça. Essa é a principal ação dramática de Ashes To Ashes: a especulação amorosa.


Rebecca atinge um estado crítico, repete várias vezes a mesma coisa, persiste em esquivar-se das perguntas do marido. É quase como se ela estivesse dissimulando, mas a atuação de Berselli, apesar de trabalhar com a ambigüidade do texto, tende mais para a exploração do estado de alucinação que a mulher apresenta. Rebecca cavou fundo em suas emoções e nos labirintos de sua mente. Aqui, como em praticamente toda a peça, o devaneio da fêmea contrasta com a aplicação do macho, que faz perguntas objetivas ou deseja sair para ir ao cinema.


A reação de Devlin é a de explicar para a mulher que eles moram juntos em uma casa com um jardim lindo e que ela tem uma irmã simpática. Devlin dá um banho de aplicações: elogia a mulher e diz que deveriam começar novamente, esperando uma reação positiva e maravilhada dela. O que, é claro, não acontece. Toda essa determinação masculina tem alicerces frágeis, a ponto de tombar. Então Rebecca retoma sua postura de lucidez, dizendo que não podem recomeçar, porque já começaram, podem é acabar. As cinzas devem ser jogadas às cinzas. Não é mais suportável esperar que elas se reconstituam ou mesmo peguem fogo, afinal, são cinzas! Cinzas de um relacionamento.


A iluminação tem pouca significância, apenas a última cena apresenta um único foco de luz vermelha que banha Rebecca enquanto ela diz a última fala. Talvez um caminho interessante fosse explorar a iluminação através de diferentes ângulos, intensidades e frequências. Levar em consideração o teor subversivo do texto dramático, fazendo com que o ato de iluminar experimente a incerteza e o desespero iminente, características do texto. A impressão é a de que o casal vai se aniquilar a qualquer momento, o que gradualmente acontece, pois suas confissões ativam ciúme, raiva, humilhação e dúvida.


O figurino apresenta roupas elegantes que parecem encobrir a vida medíocre e cheia de tormentos do casal. O vestido branco de Rebecca comunica a tranquilidade que ela sempre quis, característica ameaçada pelo detalhe vermelho do vestido e pelos sapatos vermelhos. Devlin veste um paletó, o que corrobora com sua atitude: formalidade e decoro. Características que o ator construiu com sucesso, tanto ele quanto a atriz fizeram um trabalho digno de aplauso.


O que destoa Cinzas Às Cinzas, com belíssima direção de Luís Fabiano, são os problemas que assombram a relação cênica entre ator e atriz. Havia momentos em que eu não acreditava no que eles falavam e nem em quem eles eram. Por mais que as atuações individuais estejam afiadas, persiste um problema de química entre os dois na minha percepção. Elielto Rocha tem uma intenção vocal muito adequada, o texto se harmoniza com sua voz. Marcia Berselli me atrai tanto em cena quanto Rebecca no texto, foi uma tarefa difícil ler o texto sem pensar na atuação de Marcia, que ficou como uma marca no meu imaginário. Enquanto Devlin tira borbotões de uma maçã, reorganiza a casa retirando objetos da lixeira e barbeia-se, Rebecca chama atenção com suas frequentes saídas de sintonia (executadas com esmero por Berselli), é a tendência que a personagem tem de abandonar-se mergulhando em suas memórias.


A última fala de Rebecca é muito poderosa, ela conta que foi conduzida aos trens com uma senhora, ambas carregando seus bebês, mas o dela começou a chorar e então ela se obrigou a entregar ao homem (o amante de Rebecca?) que pedia o que ela carregava na trouxa. A mulher pergunta o que aconteceu com o bebê de Rebecca, ela responde salientemente nunca ter tido um bebê.


A reação de Devlin no meio dessa revelação é muito adequada e instigante. Ele imita a fantasia erótica que o amante dela costumava fazer, faz menção de estrangular a mulher. E o interessante é que ela parece reproduzir esse ato em sua vida, estrangulando memórias inoportunas, como a perda de seu próprio filho. A luz vermelha que ilumina Rebecca, mancha seu vestido branco como sangue, é o momento em que o detalhe vermelho do vestido escorre pelo corpo da mulher: o parto ocorre. Ela perde o bebê para o mundo.


Eu não tenho nenhum bebê.
Não sei de bebê nenhum.